Conto de Inverno

(The Winter's Tale)
William Shakespeare

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Edio
Ridendo Castigat Mores

Fonte Digital
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"Todas as obras so de acesso gratuito. Estudei sempre por conta do Estado, ou melhor, da Sociedade que paga impostos; tenho a obrigao de retribuir ao menos uma 
gota do que ela me proporcionou."
Nlson Jahr Garcia (1947-2002)

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Ridendo Castigat Mores

      
CONTO DE INVERNO
(The Winter's Tale)

William Shakespeare

      
NDICE
      
ATO I
Cena I
Cena II

ATO II
Cena I
Cena II
Cena III

ATO III
Cena I
Cena II
Cena III

ATO IV
Coro
Cena I
Cena II
Cena III

ATO V
Cena I
Cena II
Cena III

      
Personagens
      
LEONTES, Rei da Siclia.
MAMLIO, jovem Prncipe da Siclia.
CAMILO, nobre da Siclia.
ANTIGONO, nobre da Siclia.
CLEMENES, nobre da Siclia.
DION, nobre da Siclia.
POLXENES, Rei da Bomia.
FLORIZEL, seu filho.
ARQUDAMO, um nobre da Bomia.
UM MARINHEIRO.
UM CARCEREIRO.
UM VELHO PASTOR, pai putativo de Perdita.
O BOBO, seu filho.
Um criado do velho pastor.
AUTLICO, um mariola.
HERMONE, esposa de Leontes.
PERDITA, filha de Leontes e de Hermone.
PAULINA, esposa de Antgono.
EMLIA, uma dama, do servio da rainha.
Outras damas, do servio da rainha.
MOPSA, Pastora.
DORCAS, Pastora.
Nobres e damas da Siclia, criados, guardas, stiros, pastores, pastoras, etc.
O Tempo, como coro.

      
ATO I
Cena I
      
Antecmara do palcio de Leontes. Entram Camilo e Arqudamo.
      
     ARQUDAMO - Se alguma vez, Camilo, tiverdes oportunidade de visitar a Bomia, em misso idntica  que me trouxe aqui, vereis, como disse, a grande diferena 
que existe entre nossa Bomia e vossa Siclia.
     CAMILO - Creio que no prximo vero o Rei da Siclia pretende pagar ao Rei da Bomia a visita que lhe deve.
     ARQUDAMO - Ento, a nossa hospitalidade nos vai deixar envergonha dos, mas o nosso amor nos justificar, porque...
     CAMILO - Suplico-vos...
     ARQUDAMO -  verdade; falo com conhecimento de causa. No nos ser possvel, com tanta magnificncia... uma to rara... No sei como expressar-me. Teremos 
de dar-vos alguma bebida soporfica, para que vossos sentidos, no percebendo nossa insuficincia, ainda que no nos possam elogiar, pelo menos no nos censurem.
     CAMILO - Avaliais muito alto o que vos dado de boa vontade.
     ARQUDAMO - Podeis crer que falo de acordo com meu entendimento e como impe a honestidade.
     CAMILO - Com relao  Bomia, Siclia nunca poder mostrar excesso de amabilidade. O Rei da Siclia e o da Bomia passaram juntos a mocidade, tendo entre eles 
a amizade criado to profundas razes, que no poder deixar de produzir galhos. Desde que a compostura da idade viril e as obrigaes reais os separaram, suas relaes, 
ainda que no diretas, tm sido mantidas regiamente por meio de mimos, cartas e em baixadas amistosas, de forma que pareciam continuar juntos, embora es tivessem 
separados e que se apertavam as mos por sobre um grande abismo e se abraavam dos confins dos ventos contrrios. Que o cu conserve essa amizade.
     ARQUDAMO - Penso que no h no mundo malcia nem pretexto que possam modific-la. Vosso jovem Prncipe Mamlio vos proporciona me fvel satisfao no conheo 
gentil-homem de maiores esperanas.
     CAMILO - Nesse ponto, concordo convosco;  uma criana admirvel, que cura, realmente, seus sdditos e deixa vigorosos os coraes envelhecidos. As pessoas que 
j usavam muletas antes do seu nascimento, ainda querem viver para v-lo homem feito.
     ARQUDAMO - E a no ser por esta razo, morreriam de grado?
     CAMILO - Sim, no caso de no terem outra desculpa para quererem viver mais tempo.
     ARQUDAMO - Se o rei no tivesse filho eles desejariam continuar vivendo at que lhe nascesse um.

      
Cena II
      
O mesmo. Um quarto de Estado no palcio.Entram Leontes, Polxenes, Hermone, Mamlio, Camilo e squito.
      
     POLXENES - J serviu de sinal por nove vezes o mido astro ao pastor, ds que deixamos sem fardo nosso trono. Igual espao de tempo, caro mano, deveramos 
encher com nossos agradecimentos, mas como vosso devedor perptuo, ainda assim, nos partramos. Por isso, tal como um zero em ponto vantajoso, multiplico por um 
"muito obrigado" todos os que antes dele se encontrarem.
     LEONTES - Deixai de lado os agradecimentos por algum tempo, para no-los dardes no instante da partida.
     POLXENES - Amanh mesmo, senhor, h de ser isso. Inquieto deixam-me os meus receios sobre o que  possvel germinar ou nascer em nossa ausncia. No sopre 
em casa vento algum maligno, que me faa dizer: "Os meus temores eram justificados" Alm disso, j cansei por demais Vossa Realeza.
     LEONTES - Nosso vigor, querido mano, pode opor-se a mais do que isso.
     POLXENES - -me impossvel ficar mais tempo.
     LEONTES - Uma semana, ao menos.
     POLXENES - No; impossvel; amanh.
     LEONTES - O tempo dividamos, ento, sem que eu aceite, desta vez, objees.
     POLXENES - No insistais, por favor, assim tanto. Voz nenhuma, no mundo inteiro, sim, me poderia convencer como a vossa, o que sem dvida agora se daria, caso 
houvesse qualquer motivo urgente em vossos rogos e em mim fortes razes para esquivar-me. Meus negcios me atraem para casa; se insistirdes comigo, me castiga vossa 
amizade. Minha permanncia vos  pesado fardo, a um tempo, e incmodo. Para obviar a ambos, mano, despeamo-nos.
     LEONTES - Emudeceu minha rainha, acaso? Dizei alguma coisa.
     HERMONE - Tencionava, senhor, ficar calada at que houvsseis dele arrancado o juramento explcito de que no ficar. Tentais venc-lo com frieza excessiva. 
Declarai-lhe que tendes a certeza de que tudo na Bomia est bem, como o proclamam as novas recebidas ontem mesmo. Falai-lhe assim, porque dessa maneira o batereis, 
no seu melhor reduto.
     LEONTES - Muito bem dito, Hermone.
     HERMONE - Se acaso tivesse dito que quer ver o filho, fora razo de peso. Ele que o jure; depois deixa-o partir. Ele que o jure, que aqui no ficar, pois 
haveremos de toc-lo com nossas prprias rocas. (A Polxenes.) Ora a pedir me atrevo uma semana de vossa real presena. Ao visitar-vos na Bomia meu senhor, dar-lhe-ei 
licena para ficar um ms alm do prazo marcado para a volta, embora, Leontes, no te ame menos uma pancadinha de relgio do que qualquer esposa que acate seu marido. 
Resolvestes ficar?
     POLXENES - Senhora, no.
     HERMONE - Sim, ficareis.
     POLXENES - Em verdade,  impossvel.
     HERMONE - Em verdade? Escusais-vos com juras muito fracas. Mas embora com vossos juramentos das esferas os astros arrancsseis, eu vos diria: "No, senhor, 
 intil falardes em partir." De forma alguma. Esse "de forma alguma" pronunciado por uma dama  to potente como se dito por um rei. No resolvestes ainda? Ento, 
forada sou a deter-vos como meu prisioneiro, no como hspede. Pagareis, desse modo, ao vos partirdes, vossa estada entre ns sem esbanjardes os agradecimentos. 
Que dizeis? Hspede ou prisioneiro? Pelo vosso terrvel "em verdade"  inevitvel: tereis de ser um ou outro.
     POLXENES - Ento, vosso hspede, senhora, pois ser vosso prisioneiro, para mim fora ofensa mais difcil de cometer, que para vs puni-la.
     HERMONE - No serei carcereira, ento, mas vossa hospedeira bondosa. Vamos; quero dirigir-vos perguntas sobre todas as peraltices que com meu marido fizestes 
quando crianas. Ambos reis, de certo, nobrezinhos mui galantes.
     POLXENES - Pois no, formosa soberana, moos que criam sempre ter diante de si dias em tudo iguais e que haveriam de ser sempre rapazes.
     HERMONE - Meu mando, decerto, era, dos dois, o mais terrvel.
     POLXENES - ramos como dois cordeiros gmeos que um para o outro balavam, saltitantes ao sol, de to contentes. Permutvamos nossa inocncia apenas, inocncia. 
A doutrina do mal desconhecendo, nem sequer conceber ento podamos que algum a conhecesse. Se tivssemos continuado a viver dessa maneira, sem que nossos espritos 
ingnuos, pelo sangue levados, se exaltassem, com ousadia ao cu nos fora lcito responder: "No culpados", excetuando-se nossa herana mortal.
     HERMONE - De onde conclumos que tropeastes, desde ento, por vezes.
     POLXENES -  mui prezada dama! Desde essa poca temos sido tentados, pois naqueles dias implumes, minha atual esposa ainda era bem menina, e no havia tambm 
vossa preciosa formosura cado sob as vistas do meu jovem camarada de jogo.
     HERMONE - Deus nos guarde! No tireis concluses, que podereis chamar-me e a vossa esposa de demnios. Mas prossegui sem medo; respondemos pelos pecados que 
por nossa causa cometestes ento, caso conosco, s, tivsseis pecado e s conosco persistsseis nesse erro, sem que houvsseis tido amores com outra at ao presente.
     LEONTES - Convenceste-o?
     HERMONE - No partir, senhor.
     LEONTES - Recusou-se a ficar a meu pedido. Hermone querida, nunca a ponto falaste como agora.
     HERMONE - Nunca?
     LEONTES - Nunca, tirante uma s vez.
     HERMONE - , ento, verdade? Falei bem duas vezes? E a primeira, quando foi? Por obsquio, dize logo. Enche-me de elogios e me deixa to gorda como as aves 
bem tratadas. A boa ao que morre sem encmios, mata milhares que esperavam isso. Nossa paga  o elogio. Por mil milhas com um beijo terno podereis levar-nos, sem 
que nos faa um passo andar a espora. Mas voltemos ao ponto de partida. Minha ltima ao boa foi pedir-lhe que ficasse. E a primeira? Se interpreto corretamente 
o que dizeis, aquela teve uma irm mais velha. Oh! se seu nome fosse Graa! , ento, certo? Uma vez, antes, eu falei com propsito. Mas, quando? Oh! Permiti que 
o saiba! Estou ansiosa.
     LEONTES - Ora, foi quando trs azedas luas mui demoradamente se finaram, antes de eu conseguir que essa mo branca se abrisse e confirmasse o teu afeto, depois 
do que, em resposta, me disseste: "Sou vossa para sempre".
     HERMONE - Sim, foi graa. Falei bem duas vezes, no  certo? Uma, para alcanar o real esposo; outra, a fim de reter um pouco o amigo. (Estende a mo a Polxenes.)
     LEONTES ( parte) - Muito quente! Muito quente! Unir as afeies de tal maneira,  unir, tambm, o sangue. Estou sentindo "tremor cordis"; o corao me dana, 
mas no  de alegria. O acolhimento pode ficar de rosto descoberto, condescender, at, em liberdade, por generosidade e exuberncia, mesmo, do corao. At a, concedo. 
Mas baterem palminhas, beliscarem-se os dedos, como o fazem neste instante, permutarem sorrisos estudados, como em frente do espelho e, aps, suspiros soltarem, 
como toque de buzina que a morte propalasse do veadinho... Oh! Tal acolhimento -me contrrio, visceralmente, ao peito e ao sobrecenho. Vem Mamlio; s meu filho?
     MAMLIO - Sim, bondoso senhor.
     LEONTES - Verdade? Ento s meu fedelho. Qu? Sujaste o nariz? Todos afirmam que  igualzinho ao meu. Vem, capito; precisamos ser limpos, capito; nada devemos 
carregar na testa, conquanto a vaca, o boi e o bezerrinho passem por muito limpos. - Como! Ainda tocando virginal sobre as mos dela? - Ento, bezerro libertino? 
s mesmo meu bezerrinho, no?
     MAMLIO - Se vos agrada tal coisa, meu senhor.
     LEONTES - Para isso falta-te cabea dura e as minhas excrescncias. Ficarias como eu. Como dois ovos, dizem todos, ns somos. As mulheres  que o dizem... Precisam 
dizer algo. Mas embora to falsas elas fossem como a cor preta de tintura nova, ou como o vento e as guas, e at os dados que o jogador cobia, quando linha divisria 
entre o teu e o meu no traa: verdadeiro seria asseverarem que o menino comigo se parece. Senhor pajem, olhai-me com esses olhos da cor do cu. Meu vilozinho, 
caro, carssimo pedao de mim mesmo! Tua me poderia... , ento, possvel? Instinto, teus impulsos no alvo acertam; possvel deixas o que nunca fora sequer imaginado; 
ajuda encontras at nos sonhos; vais achar aliado no prprio irreal e ao nada te associas. Depois te tornas crvel, pois te juntas a alguma coisa. Agora fazes isso 
sem justificaes, e o sinto fundo, pois o crebro tenho envenenado e a fronte endurecida.
     POLXENES - Que se passa com Sua Majestade da Siclia?
     HERMONE - Parece preocupado.
     POLXENES - Ento, senhor? Como passais? Que tem o caro mano?
     HERMONE - Dais a impresso de que na fronte tendes grande preocupao. Estais zangado?
     LEONTES - Falando srio, no. Como  freqente trair a natureza a sua prpria loucura, seu desvelo, transformando-se em objeto de escrnio para os peitos endurecidos! 
Contemplando os traos do rosto de meu filho, pareceu-me recuar vinte e trs anos no passado, vendo-me quando cala eu no usava, com meu casaco de veludo verde, 
a espada amordaada, porque o dono no chegasse a morder, assim tornando-se - como com os ornamentos acontece - perigosa demais. Quo parecido, pensava ento, eu 
era a este grozinho, a este pirralho, a este cavalheiro! Honesto amigo, aceitareis ovos em lugar de dinheiro?
     MAMLIO - No, milorde; primeiro, brigaria.
     LEONTES - Assim, valente? Desse modo, irs longe. Caro mano, sois to ligado ao vosso jovem prncipe como ns parecemos ser ao nosso?
     POLXENES - Senhor, em casa ele  meu passatempo, minha alegria, objeto de cuidados; ora amigo jurado, ora inimigo, parasita da corte, meu soldado, ministro, 
tudo, em suma. Deixa os dias de julho curtos como os de dezembro com seu gnio infantil sempre varivel, curando-me de certos pensamentos que, de outro modo, o sangue 
me engrossaram.
     LEONTES - No que me diz respeito, a mesma coisa se d com este escudeiro. Agora vamos passear, senhor, e vos deixar com vossos pensamentos mais graves. Cara 
Hermone, revela na acolhida a nosso mano todo o amor que nos votas. Que para ele fique barato quanto ns tivermos de caro aqui. Depois de ti e deste pequeno vagabundo, 
 ele, sem dvida, quem mais de perto o corao me toca.
     HERMONE - Se quiserdes achar-nos, estaremos s ordens no jardim. Vireis depressa?
     LEONTES - Fazei como quiserdes; hei de achar-vos onde quer que estejais ao descampado. ( parte.) Agora estou pescando, muito embora eles no vejam como eu 
solto a linha. Muito bem! Muito bem! Como a boquinha ela para ele estende, ou melhor, o biquinho! E como ao brao dele se apia com a desenvoltura das mulheres que 
tm marido dcil! (Saem Polxenes, Hermone e o squito.) Bem, j se foram. Lama at aos joelhos; excrescncias acima das orelhas... Brinca, menino, brinca; tua 
me tambm est brincando. Eu tambm brinco, mas meu papel  to ignominioso, que acabar com vaia no meu tmulo. Como dobre vou ter pateada e escrnio. Vai brincar, 
rapazinho; vai. J houve antes de mim maridos enganados, se nisso no me iludo, como muitos deve haver, no momento em que isto falo, que a esposa ao brao levam, 
sem que a mnima suspeita de que houvesse ela as comportas aberto, permitindo que o vizinho do lado pescar viesse no seu tanque, sim, seu vizinho, o tal senhor Sorriso. 
Serve, at, de consolo, imaginarmos que outros homens tambm possuem portas que se abrem como as minhas, sem que os donos tenham vontade disso. Se os maridos de 
esposas infiis desesperassem, enforcar-se-ia, certamente, a dcima parte da humanidade. No h cura para esse mal. Influncia  de um planeta lascivo, que revela 
seus efeitos onde  predominante, parecendo-me que a leste, a oeste, ao norte e ao sul tem fora. Em concluso: no pode haver barreiras que a entrada a um ventre 
impeam. Ficai certos do seguinte: o inimigo elas permitem sair e entrar com armas e bagagens. Milhares dentre ns sofrem da doena, sem que suspeitem disso. Ento, 
menino?
     MAMLIO - Pareo-me convosco, dizem todos.
     LEONTES - Isso consola. Qu! Camilo aqui?
     CAMILO - Sim, meu senhor.
     LEONTES - Mamlio, vai brincar; s honesto. (Sai Mamlio.) Camilo, este importante senhor vai demorar.
     CAMILO - Muito trabalho tivestes para que a ncora pegasse; escapulia sempre que a jogveis.
     LEONTES - Observaste isso?
     CAMILO - s vossas insistncias no queria ceder, sempre alegando negcios de importncia.
     LEONTES - Percebeste-o? ( parte.) J se fala baixinho a meu respeito: "O soberano da Siclia  um..." Custou-me perceb-lo. - Por que causa, ele ficou, Camilo?
     CAMILO - Ante as instncias da bondosa rainha.
     LEONTES - Da rainha, poder ser; "bondosa", fora certo; mas, sendo o que , no . Compreendeu isso outra cabea astuta alm da tua? Pois teu entendimento chupa, 
absorve mais que os blocos comuns. Ter sido isso notado s por naturezas raras, por alguns indivduos de cabea mais do que extraordinria, sendo o vulgo cego, 
talvez, para essas coisas? Dize.
     CAMILO - Que coisas, meu senhor? Penso que todos so de pensar que o Rei da Bomia espicha demais sua visita.
     LEONTES - Como?
     CAMILO - Espicha demais sua visita.
     LEONTES - Bem; e a causa?
     CAMILO - Para satisfazer Vossa Grandeza e aos pedidos de nossa mui graciosa soberana.
     LEONTES - Satisfazer!  boa. De vossa soberana?  quanto basta. At agora, Camilo, te confiava no somente segredos que me tocam de perto o corao, como os 
de Estado, e, como sacerdote, me aliviavas o peito. Como penitente absolto de ti sempre partamos. Mas fomos iludidos com tua integridade, ou com a que como tal 
considervamos.
     CAMILO - Deus no o queira, senhor!
     LEONTES - Para de novo dizer-te o meu pensar: no s honesto, ou, se para isso fores inclinado, s um covarde que o jarrete cortas, por trs,  honestidade, 
de seu curso natural impedindo-a. Ou te devo considerar um servo que na minha confiana calou mui profundamente e, por isso, relapso, ou como um tolo que observa 
o jogo que se faz em casa, nota o ganho excessivo e toma tudo como simples pilhria.
     CAMILO - Meu gracioso senhor, eu posso ser relapso, tolo, medroso, se o quiserdes, falhas essas de que ningum pode julgar-se isento, para afirmar que nunca, 
em meio aos fatos infinitos do mundo, houvesse sido medroso, tolo ou mesmo negligente. Se alguma vez, senhor, cons cien te men te negligenciei no que se relaciona 
aos vossos interesses, foi tolice de minha parte; se papel de tolo consciente fiz, foi minha negligncia que teve a culpa, por haver deixado de pensar at ao fim 
nas conseqncias; e se medroso me mostrei, por vezes, de fazer algo cujo resultado me parecia incerto, revelando-se o plano no isento de perigo, era isso um medo 
de que os mais sisudos nem sempre se livraram. Essas falhas, senhor, so permitidas, sendo certo que a prpria honestidade delas sofre. Mas seja Vossa Graa mais 
explcito, mostrando-me de frente minhas falhas; se eu as negar,  que no me pertencem.
     LEONTES - Nunca viste, Camilo - mas no pode haver sobre isso dvida; seria preciso que tivesses as janelas dos olhos mais compactas do que os cornos de marido 
enganado - ou nunca ouviste - pois ante um fato desses, to visvel, no fica mudo o boato - ou no pensaste - pois quem no pensa nisso  destitudo de reflexo 
- que minha esposa  infiel? Confessa-o logo - a menos que te insurjas com impudncia contra os prprios olhos, os ouvidos e o juzo - e me declara que minha esposa 
 uma prostituta e que merece o nome vergonhoso que s fiandeiras de linho sempre damos, por se entregarem antes do consrcio. Vamos, confirma tudo.
     CAMILO - No; jamais diante de mim ningum insultaria minha nobre senhora desse modo, sem que vingana, logo, eu no tomasse. Maldito eu tenha o corao, mas 
nunca dissestes nada mais de vs indigno do que neste momento. Insistir nisso, fora pecado mais hediondo ainda do que aquele, se fosse verdadeiro.
     LEONTES - E o falar baixo, nada representa? Encostarem-se as faces? os narizes? beijarem-se nos lbios? com um suspiro interromper o curso de um sorriso - prova 
infalvel de infidelidade - encontrarem-se os ps, andarem sempre pelos cantos, quererem que os relgios fossem menos morosos, que os minutos fossem horas, o dia, 
noite escura? E todo o mundo - menos eles, claro; excetuando-se os dois - com catarata nos olhos, para que pecar pudessem sem ningum o notar... Tudo isso  nada? 
Ento  nada o mundo todo e tudo que nele se contm; o cu  nada, Bomia  nada, minha esposa  nada, so nada todos esses nadas, caso for nada quanto passa.
     CAMILO - Meu bondoso senhor, curai-vos sem demora dessas fantasias doentias; quase sempre so muito perigosas.
     LEONTES - Dize:  certo.
     CAMILO - No, no, senhor!
     LEONTES -  certo; ests mentindo. Torno a dizer, Camilo: ests mentindo. Odeio-te! Confessa que no passas de um rstico grosseiro, de um escravo negligente, 
e at mesmo de um tranqilo contemporizador que a vista lanas indiferente para o bem e o mal, propenso a aceitar ambos. Se tivesse minha mulher o fgado infectado 
como sua prpria vida, nem uma hora viveria ela agora.
     CAMILO - Quem lhe causa semelhante infeco?
     LEONTES - Quem? Justamente quem a usa tal qual uma medalha pendente do pescoo: o Rei da Bomia. Se eu tivesse comigo servidores de confiana, com olhos, a 
um s tempo, para ver minha honra e seu proveito, para vantagem prpria, ora fariam algo que desfaria muita coisa. Sim, tu, seu escano - que de uma humilde condio 
eu tirei, grande fazendo-te, e podes ver, mais claramente, ainda, do que o cu v a terra e a terra o cu, como sou ultrajado - poderias temperar a bebida numa copa 
que para o meu amigo resultasse um sono duradouro. Tal mistura me fora um cordial.
     CAMILO - Senhor, meu prncipe,  certo: eu poderia fazer isso, sem recorrer, at, a essas bebidas de ao muito violenta, mas valendo-me de um licor vagaroso, 
que no age com a visvel malcia dos venenos. Mas crer no posso que haja semelhante mcula em minha augusta e alta senhora, to soberanamente honrada e digna. 
Sempre te amei...
     LEONTES - Se acaso ainda o duvidas, que a peste te carregue. Ento me julgas to mal equilibrado, a tal extremo perturbado que, sem necessidade, me forje esses 
tormentos? Sujar queira a pureza, a brancura de meu leito que, sem isso, repouso me aprestara, mas, manchado,  aguilho, espinho, urtiga, ferro de abelhas? Infamar 
quisesse o sangue deste prncipe, meu filho, que eu amo como meu e que presumo seja realmente meu? Ser possvel que eu fizesse tudo isso? H algum to louco?
     CAMILO - Sou forado, senhor, a dar-vos crdito. Creio no que dizeis. O Rei da Bomia vai desaparecer, ficando assente, no entanto, que, uma vez ele afastado, 
receber de novo Vossa Alteza, como antes, a rainha, se no fosse por outra causa, por amor ao prncipe, mas tambm para pr cobro na lngua dos maldizentes das 
vizinhas cortes onde tendes amigos ou aliados.
     LEONTES - Teu conselho coincide justamente com o que eu comigo mesmo decidira. Disso sua honra no sair manchada.
     CAMILO - Meu soberano, sa, portanto, e com fisionomia to prazenteira como s a amizade mostra em dia festivo, tratai sempre o Rei da Bomia e vossa alta senhora. 
Eu sou o escano dele; se bebida salutar eu lhe der, exclu-me logo do nmero de vossos servidores.
     LEONTES -  tudo; se o fizeres, a metade ters do corao que aqui me bate; caso contrrio, o teu ters partido.
     CAMILO - F-lo-ei, senhor.
     LEONTES - Hei de mostrar-me afvel, como me aconselhaste. (Sai.)
     CAMILO - Oh mulher infeliz! Mas qual  a minha situao?  preciso que eu propine veneno ao bom Polxenes, no tendo razo para isso, afora a obedincia que 
devo ao meu senhor, o qual, achando-se em rebelio consigo mesmo, exige de seus homens idntica atitude. Promovido serei se fizer isso. Mas ainda que eu achasse 
mil exemplos de pessoas que, tendo da existncia privado o ungido do Senhor, levassem depois vida feliz, no no faria. Mas j que a pedra, o pergaminho e o bronze 
um s exemplo disso no nos contam, que a prpria vilania o repudie. Preciso, pois, abandonar a corte. Fao-o... No o fao... De qualquer maneira quebrarei o pescoo. 
Os passos guia-me, feliz estrela! O Rei da Bomia chega.
     (Entra Polxenes.)
     POLXENES -  estranho!  muito estranho! S parece que meu favor aqui est em declnio. No me falar! Ora essa! Boa-tarde, Camilo.
     CAMILO - Salve, muito real senhor.
     POLXENES - Que novidades h na corte?
     CAMILO - Nada particular, senhor.
     POLXENES - Pelo semblante do rei dir-se-ia que ele uma provncia perdeu ou alguma terra que estimasse tanto como a si mesmo. Neste instante o encontrei, e 
o saudei como de hbito. Mas ele a vista desviando e os lbios contraindo num gesto de desprezo, afastou-se depressa, a ss deixando-me a pensar no que pode estar 
em curso para causar alterao to grande.
     CAMILO - No me atrevo a sab-lo, meu senhor.
     POLXENES - Qu! No vos atreveis? Sabeis de tudo, e no vos atreveis a revelar-mo? O caso  assim, porque para vs mesmo o que sabeis contais, sem responderdes 
que no vos atreveis. Meu bom Camilo, vosso rosto alterado ora me serve de espelho em que tambm mudados vejo meus traos fisionmicos. Foroso, pois,  que eu tenha 
alguma parte nisso, para me ver assim to transtornado.
     CAMILO - Uma doena atacou algum na corte, mas no posso nome-la; foi pegada de vs, que, no entretanto, estais sadio.
     POLXENES - Como! Pegou de mim? Mas certamente no me fareis possuidor da vista do basilisco. Olhei para milhares de pessoas, que muito prosperaram por esse 
fato, sem causar a morte de ningum s por isso. Bom Camilo, sois, sem dvida alguma, um gentil-homem e, alm do mais, instrudo - o que  nobreza serve de adorno 
no menor que o nome de nossos genitores, cujo brilho nos serve de elevar - instantemente vos suplico se acaso sabeis algo de que eu precise ter conhecimento, no 
o deixeis permanecer oculto nas prises da ignorncia.
     CAMILO - Responder-vos no me  possvel.
     POLXENES - Transmiti doena e me acho to sadio? No; preciso obter uma resposta. Ests me ouvindo, Camilo? Ora conjuro-te, por tudo quanto a honra pode permitir 
a um homem - no sendo a menor parte este pedido - que me esclareas tuas conjeturas acerca da desgraa no visvel que para mim se esgueira. Ainda est longe? J 
vem prxima? Como preveni-la? Ou ento, de que maneira suport-la?
     CAMILO - Vou contar-vos, senhor, o que se passa, pois intimado fui em nome da honra por quem honrado eu julgo. Ouvi, portanto, meu conselho, que deve ser seguido 
no mesmo instante em que o tiver exposto; se no, s restar para ns ambos gritar "Perdidos" e nos dar boa-noite.
     POLXENES - Fala, ento, bom Camilo.
     CAMILO - Estou incumbido por ele de matar-vos.
     POLXENES - Ele quem, Camilo.
     CAMILO - O rei.
     POLXENES - E a causa?
     CAMILO - Ele presume, no, jura com inteira segurana, como se o houvesse visto ou sido o ferro que vos tivesse atarraxado nisso, que tocastes por modo criminoso 
na rainha sua esposa.
     POLXENES - Que em gelia ptrida se me altere o melhor sangue e que meu nome sob o jugo fique lado a lado do que traiu o Altssimo, que meu nome ilibado, de 
tal modo podre se torne que, onde quer que eu chegue, cause nojo aos narizes mais obtusos; que de minha presena todos fujam, no, que todos a temam mais ainda do 
que a peste mais grave de que se haja falado ou dado a conhecer por livros.
     CAMILO - No que respeita ao pensamento dele, podereis jurar pelas estrelas do cu, uma por uma, e seus influxos, mas o mesmo seria pretenderdes proibir que 
o mar  lua no seguisse, como o edifcio sacudir de sua loucura, de alicerces assentados na crena inabalvel e que vida ter tanto quanto ele.
     POLXENES - De que modo nasceu tudo isso?
     CAMILO - Ignoro-o. Mas certeza tenho completa de que  prefervel fugir das conseqncias dessa idia, a procurar saber como nasceu. Assim, no caso de confiana 
terdes em minha honestidade - que heis de logo levar como penhor - fugi esta noite. Secretamente contarei aos vossos seguidores o que h, providenciando para que 
saiam da cidade em grupos de dois ou trs, apenas, por poternas de meu conhecimento. Enquanto a mim, junto de vs irei tentar a sorte, por esta confisso, aqui perdida. 
No vacileis; pela honra dos meus entes mais queridos, contei-vos a verdade. No me  possvel esperar, no caso de quererdes mais provas, pois o risco correis de 
quem se achasse condenado pelo prprio monarca e cuja morte jurada j estivesse.
     POLXENES - Creio em tudo; o corao no rosto ele mostrava. D-me a mo; de piloto ora me serve, que vizinho do meu ser teu posto. Meus navios j se acham 
preparados e h dois dias meus homens s me esperam para partirmos. Este cime atinge pessoa mui preciosa. Ser forte quo valiosa ela for, e to violento quanto 
o marido for mais poderoso. Pensando que se encontra desonrado por quem lhe dedicara sempre afeto, com mais furor h de querer vingar-se. O medo me conturba. Feliz 
viagem, s minha amiga e de consolo serve  graciosa rainha, alvo de suas suspeitas infundadas, mas sem parte nenhuma ter em nada. Vamos logo, Camilo. Como pai hei 
de acatar-te, se a vida me salvares. Estou pronto.
     CAMILO - Minhas atribuies me facilitam as chaves das poternas. Saiba Vossa Grandeza aproveitar-se da hora urgente. Vamos, senhor! Depressa!
     (Saem.)

      
ATO II
Cena I
      
Siclia. Um quarto no palcio. Entram Hermone, Mamlio e damas da corte.
      
     HERMONE - Levai daqui o menino.  insuportvel; cansa-me por demais.
     PRIMEIRA DAMA - Vinde comigo, meu gracioso senhor; brinquemos juntos.
     MAMLIO - No, no quero; de vs no quero nada.
     PRIMEIRA DAMA - Por qu, caro senhor?
     MAMLIO - Beijais-me muito duramente e falais comigo como se eu ainda fosse criana. Antes aquela.
     SEGUNDA DAMA - E o motivo, senhor, me quererdes?
     MAMLIO - No h de ser por terdes sobrancelhas escuras, muito embora todos digam que as sobrancelhas dessa cor assentam muito bem nas mulheres, se no forem 
muito espessas, somente um semicrculo ou meia-lua, como feita  pena.
     SEGUNDA DAMA - Quem vos ensinou isso?
     MAMLIO - Ora, aprendi-o no rosto das mulheres. Por obsquio: de que cor so as vossas sobrancelhas?
     PRIMEIRA DAMA - Azul, milorde.
     MAMLIO - Ora, isso  brincadeira. Nariz azul j vi numa senhora; mas sobrancelhas, nunca.
     SEGUNDA DAMA - Ora escutai-nos. Vossa me, a rainha, est engordando. Dentro de poucos dias passaremos a servir outro belo e jovem prncipe. Ento, s podereis 
brincar conosco, se tiverdes vontade.
     PRIMEIRA DAMA - Ultimamente, de fato, est ficando muito gorda. Que tenha um bom trabalho.
     HERMONE - De que assunto vos ocupais com tanta seriedade? Vinde, senhor; sou novamente vossa. Contai-nos uma histria.
     MAMLIO - Alegre ou triste?
     HERMONE - A mais alegre que vos for possvel.
     MAMLIO - Vai melhor com o inverno histria triste. Conheo uma de espritos e duendes.
     HERMONE - Vamos ouvi-la, bom senhor; sentai-vos aqui junto de mim, e que me causem medo vossos espritos. Sois forte para contar histrias. Comeai.
     MAMLIO - Era uma vez um homem...
     HERMONE - No, sentai-vos, para depois falar.
     MAMLIO - ...que residia perto do cemitrio. - Aqueles grilos poder-me-iam ouvir; vou falar baixo.
     HERMONE - Ento vinde falar-me aqui no ouvido.
     (Entram Leontes, Antgono, nobres e outras pessoas.)
     LEONTES - Encontraste-lo ali? Com todo o squito? Camilo estava junto?
     PRIMEIRO NOBRE - Atrs do bosque de pinheiros. Jamais tamanha pressa vira em ningum, assim. Acompanhei-os com a vista at aos navios.
     LEONTES - Quo ditoso me julgo por sentir-me verdadeiro! Como as minhas suspeitas se confirmam! Antes soubesse menos! Quo maldito nessa felicidade  concebvel 
que uma aranha se esgueire para o copo de que venha a servir-se uma pessoa que, aps, o larga, sem que do veneno sinta qualquer efeito:  que infectada no lhe estava 
a conscincia. Mas se aos olhos o nojoso ingrediente lhe apresentam, e ver lhe fazem como usara o copo, logo a garganta e os flancos se lhe estalam sob esforos 
violentos. No meu caso, bebi a aranha e a vi. De alcoviteiro Camilo lhe serviu, serviu de cmplice contra a coroa. Ficam confirmadas, assim, minhas suspeitas. Esse 
falso vilo que eu empregava, j se achava contratado por ele; descobriu-lhe meus planos, entregando-me ao ridculo, mais do que isso: em peteca transformando-me 
que,  vontade, eles todos sopapeassem. Como foram franqueadas as poternas sem maior embarao?
     PRIMEIRO NOBRE - To-somente em virtude da grande autoridade de que ele desfrutava e que, por vezes, mais do que isso alcanou sob vossas ordens.
     LEONTES - Sei isso muito bem. - Dai-me o menino! Foi ventura no o teres criado ao peito. Muito embora nos traos se parea muito comigo, sobra nele o sangue 
que s de vs provm.
     HERMONE - Que  isso? Graa?
     LEONTES - Levai daqui o menino; junto dela no convm que ele fique. Logo! Logo! (Sai Mamlio, acompanhado.) Ela que brinque com o de que est grvida. Quem 
te deixou to gorda foi Polxenes.
     HERMONE - Digo que no foi ele, e o juro, certa de que me dareis crdito, conquanto propenso vos acheis para neg-lo.
     LEONTES - Senhores, contemplai esta mulher. Examinai-a bem. Certo direis: "Muito bela pessoa!" Mas, de pronto, vos frara a dizer a honestidade do corao: 
"Que pena no ser pura, mas desonesta!" Elogiai-lhe apenas a aparncia exterior - que, sem ressalvas, merece alto discurso - que, de pronto vereis os "Ahs!" e os 
"Huns!" e o encolher de ombros e todas essas pequeninas armas com que a calnia atua... Oh! enganei-me! com que a piedade atua, que a calnia mina a prpria virtude 
- o encolher de ombros, e os "Ahs!" e os "Huns!", no instante em que disssseis "Como  formosa!" vos impediriam de acrescentar: " honesta". Assim, que fique conhecido 
por quem mais sofre ante essa revelao:  adltera.
     HERMONE - Se acaso fosse isso dito por um celerado, o mais completo que no mundo houvesse, mais celerado ainda se tornara. Mas vs, senhor, vos enganais apenas.
     LEONTES - Minha senhora, houve um pequeno engano, to-s, de vossa parte: em vez de Leontes, Polxenes.  coisa -toa. Deixo de chamar-te criatura de teu posto, 
para que o barbarismo, aproveitando-se desse meu precedente, no aplique o mesmo nome a todas as pessoas, as posies deixando confundidas de nobres e mendigos. 
Disse:  adltera, e o nome declarei de seu comparsa. Digo mais:  traidora, e tem por cmplice Camilo, que se encontra a par de quanto comunicar para ela fora oprbrio, 
tirante o seu parceiro:  prostituta to baixa como aquelas a que o vulgo d nomes pouco limpos. Mais:  cmplice na fusa deles.
     HERMONE - No, por minha vida; no sou cmplice em nada. Que remorsos no sentireis, quando tiverdes plena certeza da injustia que, de pblico, me fazeis 
neste instante! Meu prezado senhor ser satisfao pequena dizerdes-me que estveis enganado.
     LEONTES - No; se eu me engano quanto  segurana dos alicerces sobre que edifico, no  forte bastante o prprio centro da terra para sustentar o peso de uma 
simples pitorra de estudante. Para a priso com ela! Quem por ela quiser interceder,  criminoso s por haver falado.
     HERMONE - Algum planeta nocivo est imperando;  necessrio mostrar pacincia, at que o cu assuma feio mais favorvel. Meus bondosos senhores, nunca fui 
propensa ao choro, como em geral se d com o nosso sexo. Possivelmente a falta desse intil orvalho secar vossa piedade. Mas aqui sinto aquela dor honrosa que abrasa 
em demasia, porque possa ser apagada por algumas lgrimas. A todos vs, senhores, peo, instante, que me julgueis com nimo to brando quando ditar vos possa a caridade. 
Seja feita a vontade do monarca.
     LEONTES (aos guardas) - Serei obedecido?
     HERMONE - Quem vem comigo? Peo a Vossa Alteza deixar que minhas damas me acompanhem, pois bem o vedes, meu estado o exige. Bobinhas, no choreis; no h motivo. 
Se porventura ouvirdes que vossa ama mereceu ficar presa, a flux chorai quando me libertarem. A presente acusao vai ser-me proveitosa. Adeus senhor; jamais quis 
ver-vos triste, mas triste heis de ficar, tenho certeza. Vinde senhoras; tendes permisso.
     LEONTES - Fazei o que eu mandei. Levai-a logo! (Sai a minha, escoltada, e as damas de companhia.)
     PRIMEIRO NOBRE - Suplico a Vossa Alteza que de novo mande vir a rainha.
     ANTGONO - Agi com muita cautela, meu senhor, porque a justia no se mude em violncia, o que seria causa de sofrimento triplicado: para vs, vossa esposa 
e vosso filho.
     PRIMEIRO NOBRE - Por ela, meu senhor, empenho a vida - como o fao; aceitai-a - em como  pura ante os olhos do cu e vossa vista, no que respeita  acusao 
de h pouco.
     ANTGONO - Se se provar que ela no  honesta, farei uma cocheira do meu quarto de casado e andarei emparelhado sempre com minha esposa, sem que venha dela 
a me fiar da por diante, a menos que a veja ou toque nela. Se a rainha no for sria, no h no mundo todo uma s polegada de mulher, uma dracma de carne delas 
todas, que falsa no se mostre.
     LEONTES - Ficai quietos.
     PRIMEIRO NOBRE - Meu bom senhor...
     ANTGONO - Por vs  que falamos, no por ns mesmos. Fostes iludido por algum intrigante que, por isso, h de ser condenado eternamente. Se eu soubesse quem 
 este canalha, f-lo-ia achar na terra o prprio inferno. Ela prevaricar!... Tenho trs filhas: a mais velha de onze anos; as menores, de sete, uma, e a outra cinco, 
mais ou menos. Se for verdade, ho de pagar-me todas. Hei de esteriliz-las... Por minha honra. No chegaro a completar quatorze, porque a gerar no venham filhos 
falsos. So co-herdeiras; mas prefiro ver-me mutilado, a que tenham s bastardos.
     LEONTES - Basta! Parai com isso! Nisso tudo tomais da coisa o cheiro com sentido frio como o nariz de um prprio morto. Mas eu a vejo e sinto, como agora sentis 
o que vos fao, e mais: percebo, o rgo com que sinto isso.
     ANTGONO - Sendo certo, cavar no precisamos sepultura, para nela enterrar a honestidade. No remanesce dela parte mnima, para purificar esta esterqueira que 
abrange toda a terra.
     LEONTES - Como! Vejo que no acreditais no que vos digo.
     PRIMEIRO NOBRE - Sobre esse assunto, meu senhor, prefiro que sejais vs, no eu, o mentiroso. Mais me alegra saber que ela est pura do que ver confirmada esta 
suspeita, por mais que nisto o mundo vos censure.
     LEONTES - Por que vos dar explicao do caso? Antes obedecer ao prprio impulso. Dispensar podem nossos privilgios vosso conselho em tudo, sendo apenas nossa 
bondade inata que vos chama para dar opinio. Assim, se agora - por estardes perplexos ou fingirdes grande estupefao - no conseguirdes, ou no quiserdes, como 
ns, dobrar-vos  verdade dos fatos, ficai certos de que vos dispensamos o conselho; o fato, a perda, o lucro, todo o curso, s a ns dir respeito.
     ANTGONO - E eu desejara, meu soberano, que em silncio houvsseis considerado o assunto, sem lhe terdes dado publicidade.
     LEONTES - Como fora possvel fazer isso? Ou vos tomastes, com os anos, ignorante, ou j nascestes rematado pateta. Bastariam a fuga de Camilo e a mui notria 
familiaridade entre eles - to patente como jamais suspeita alguma vira, e que faltava apenas ser notada, para ser confirmada integralmente, provando o fato as outras 
circunstncias - para levar-me a agir dessa maneira. Contudo, para ver minha conduta mais reforada ainda - que em assunto de tanta relevncia, condenada fora qualquer 
violncia - mensageiros despachei ao sagrado Delfo, ao templo de Apolo: Dion e Clemenes, bastante conhecidos de vs, como homens ntegros. Dessa resposta tudo ora 
depende.,O divino conselho ir acalmar-me ou esporear-me ainda mais. No estou certo?
     PRIMEIRO NOBRE - Certssimo, senhor.
     LEONTES - Embora convencido eu j me encontre, sem precisar de saber mais, o orculo vir servir para acalmar o esprito dos que, como este, por credulidade 
da ignorncia, no podem convencer-se da verdade dos fatos. Desse modo, de bom aviso pareceu-nos p-la sob chaves, para que ela no consiga levar a cabo a trama 
forjicada pelos dois que fugiram. Vinde logo; pblico vou tornar o que ora passa. Este negcio vai movimentar-nos.
     ANTGONO ( parte) - Para boas risadas,  o que eu penso, se a verdade chegar a ser sabida.
     (Saem.)

      
Cena II
      
O mesmo, O interior de uma priso. Entram Paulina e alguns criados.
      
     PAULINA - O carcereiro da priso! Chamai-o.,Dizei-lhe quem eu sou. (Sai um dos criados.) Nobre senhora! No h corte na Europa suficiente para tua pessoa. E 
agora presa! (Volta o criado com o carcereiro.) Bom senhor, conheceis-me?
     CARCEREIRO - Se conheo? Sim, como uma senhora muito digna, a quem muito venero.
     PAULINA - Nesse caso, por obsquio, levai-me at  rainha.
     CARCEREIRO -  impossvel, senhora, pois tenho ordens expressas em contrrio.
     PAULINA - Quanta formalidade, para o acesso impedir de visitas amistosas  honestidade e  honra!  permitido, dizei-me, ver uma de suas damas? Emlia, por 
exemplo?
     CARCEREIRO - Se quiserdes, minha senhora, retirar os criados, mandarei vir Emlia.
     PAULINA - Ento chamai-a. Retirai-vos.
     (Saem os criados.)
     CARCEREIRO - Contudo,  necessrio que eu assista  conversa.
     PAULINA - Pois que seja. (Sai o carcereiro.) Ultrapassa os preceitos da prpria arte todo esse esforo para deixar preto o que , em si mesmo, branco. (Volta 
o carcereiro, com Emlia.) Gentil dama, a graciosa rainha como passa?
     EMLIA - To bem quanto, reunidos, o permitem to alto posto e tanta desventura. Os sustos e as tristezas - jamais dama to delicada suportou tamanhas - provocaram-lhe 
o parto antes do tempo.
     PAULINA - Menino?
     EMLIA - No, menina; bela criana, forte e cheia de vida. Sua vista consola a rainha, que lhe fala: "Minha pequena prisioneira, somos ambas inocentes"
     PAULINA - Atrevo-me a jur-lo: malditos sejam esses perigosos acessos do monarca. E necessrio contar-lhe o que houve; tem de saber tudo. Isso compete a uma 
mulher; incumbo-me de lhe dar a notcia. Se disser-lhe palavras doces, quero que na lngua me rebentem feridas, cessando ela de servir de trombeta para a minha clera 
de feies congestionadas. Emilia, por obsquio, recomenda  rainha meus prstimos. No caso de ela querer confiar-me a pequerrucha, mostr-la-ei ao monarca, prometendo 
servir-lhe de advogado diligente. Quem sabe se ele ficar mais brando  vista da menina? Muitas vezes o silncio da cndida inocncia persuade onde os discursos 
fracassaram.
     EMLIA - Muito digna senhora, to patente  vossa honra e a bondade muito prpria, que no pode deixar de ter bom xito vossa nobre entrepresa. No conheo 
senhora alguma mais talhada para to grande iniciativa. Queira Vossa Senhoria esperar no quarto anexo, que logo eu vou participar  rainha vossa nobre proposta. 
Hoje mesmo ela pensara nisso; mas no se atrevera a dar essa incumbncia a qualquer nobre, com medo de um fracasso.
     PAULINA - Emilia dize-lhe que eu saberei uso fazer da lngua. Se fluir dela eloqncia como audcia no peito ora me estua,  quase certo ser eu bem sucedida.
     EMLIA - Deus vos guie. Vou ver logo a rainha. Por obsquio, vinde para mais perto.
     CARCEREIRO - Se a rainha se decidir a vos confiar a criana, no sei ao que me exponho, pois careo de ordens nesse sentido.
     PAULINA - Ora, senhor, no precisais ter medo; prisioneira do ventre era essa criana; mas por normas e processos da grande natureza conseguiu resgatar-se e 
ficar livre. Participar no pode, assim, da clera do soberano, nem tem culpa alguma da falta da rainha se houve falta.
     PAULINA - Podeis ficar tranqilo.Por minha honra, hei de pr-me de permeio entre vs e o perigo.
     (Saem.)

      
Cena III
      
O mesmo. Um quarto no palcio. Entram Leontes, Antgono, nobres e pessoas do squito.
      
     LEONTES - Repouso algum de dia nem de noite.  sinal de fraqueza suportarmos o mal dessa maneira; s fraqueza. Se ao menos estivesse a causa extinta... parte 
da causa: a adltera; que o biltre do rei se encontra longe do meu brao, fora do alvo e mirada de meus planos, completamente impune. Mas no posso passar o gancho 
nela. Se deixasse de existir, consumida pelas chamas, metade do repouso, certamente, de novo alcanaria. Quem vem l?
     PRIMEIRO CRIADO - Meu soberano...
     LEONTES - Como est o menino?
     PRIMEIRO CRIADO - Dormiu a noite toda.  de esperar-se que se restalebea.
     LEONTES - Para a sua nobreza contemplar! Tendo a desonra compreendido da me, comeou logo a estiolar-se, murchou, sentindo muito profundamente tudo o que passara. 
Aceitou a vergonha como prpria; perdeu toda a alegria, a fome, o sono, e entrou de definhar. Deixai-me s. Ide ver como passa neste instante. (Sai o Criado.) Oh 
vergonha! tiremo-lo da idia. O pensamento de querer vingar-me se vira contra mim.  poderoso por demais, em si mesmo, alm da ajuda dos parentes e aliados. Pois 
deixemo-lo, at que o tempo nisso me auxilie. Por enquanto, a vingana a atinge, apenas. Zombam de mim Camilo e o Rei da Bomia; brincam com minha dor. Mas muito 
tempo no ho de rir, que hei de alcan-los breve. Tampouco rir ela, porque a tenho bem presa agora.
     (Entra Paulina, com uma criana nos braos.)
     PRIMEIRO NOBRE - No podeis entrar.
     PAULINA - Ora, meus bons senhores, ajudai-me, que o podeis. Mais valor dais  tirnica clera dele do que  prpria vida da rainha? Ela, uma alma to graciosa, 
que mais pureza tem do que ele cime?
     ANTGONO -  quanto basta.
     SEGUNDO CRIADO - Toda a noite insone, senhora, ele passou, tendo dado ordem para que ningum viesse perturb-lo.
     PAULINA - Menos calor, meu bom senhor. Eu venho trazer-lhe sono, apenas. As pessoas como vs, que se esgueiram perto dele como se fossem sombras, e suspiram 
quantas vezes sem causa ele se agita,  que alimentam toda a sua insnia. Eu, palavras lhe trago, assim verazes como medicinais, tenes honestas para purg-lo desse 
humor nocivo, que o impede de dormir.
     LEONTES - Quem faz barulho?
     PAULINA - No  barulho, meu senhor; apenas uma conversa necessria, acerca de alguns compadres para Vossa Alteza.
     LEONTES - Como! Levai daqui essa audaciosa! Antgono, eu te havia prevenido de que no deveria essa mulher chegar perto de mim. Sabia que ela tentaria isso 
mesmo.
     ANTGONO - Disse-lhe isso, meu senhor, e observei que ela incorria no desagrado vosso e meu, se acaso tentasse visitar-vos.
     LEONTES - Como! Falta-te energia? No mandas ento nela?
     PAULINA - Para impedir de fazer mal, decerto. Mas nisto, a menos que vos siga o exemplo, prendendo-me por presa da honra achar-me, ficai certo de que ele em 
mim no manda.
     ANTGONO - Vs a ouvistes? Quando ela toma as rdeas nos dentes, disparar a deixo sempre. Nunca tropea.
     PAULINA - Venho, meu bondoso soberano, pedir que me escuteis. Vossa leal serva eu sou, sou vossa mdica, conselheira obediente e dedicada. Mas para vossa cura 
no me atrevo a me insinuar, tal como o fazem muitos daqui mesmo. Da parte venho, disse, de vossa boa esposa.
     LEONTES - Boa esposa!
     PAULINA - Boa esposa, milorde; boa esposa. Repito: boa esposa; e pelas armas isso mesmo provara, se homem fosse, o pior dentre os presentes.
     LEONTES - Expulsai-a daqui!
     PAULINA - Quem no prezar os prprios olhos, de leve ora me toque. Por vontade sairei. Antes, porm, darei remate  misso a que vim. A boa rainha - pois boa 
ela  - teve uma filha vossa. Ei-la! Para ela pede a vossa bno. (Depe a criana no bero.)
     LEONTES - Fora daqui, virago feiticeira! Alcoviteira infame!
     PAULINA - No sou isso. To ignorante sou de tal ofcio, quanto vs em me dardes esse ttulo, e to honesta sou quanto vs, louco, o que, no estado em que se 
encontra o mundo, posso afianar-vos, chega at de sobra para a gente ser tida como honesta.
     LEONTES - Traidores! No a jogareis l fora? Entregai-lhe a bastarda! (A Antgono.) Velho tonto, ttere das mulheres, que abandonas o poleiro por causa destes 
gritos! Levai daqui a bastarda e a entregai logo a essa velha sem dentes.
     PAULINA - Desonradas as mos te fiquem sempre, se tocares na princesa, depois do termo baixo que ele falou.
     LEONTES - Tem medo da mulher!
     PAULINA - Quisera que da vossa vos temesseis, pois desse modo, com maior certeza, de vossos chamareis vossos filhos.
     LEONTES - Ninhada de traidores!
     ANTGONO - No sou traidor; por esta luz divina.
     PAULINA - Nem eu, tampouco; nem ningum, exceto, dos presentes, um s, que  ele mesmo, pois sua honra sagrada, a da rainha, do filho esperanoso, desta criana, 
 calnia entregou, cujos acleos ferem mais do que a espada. Ele recusa-se - e no caso presente  verdadeira maldio no podermos constrang-lo - a extirpar uma 
idia que  to podre quanto o carvalho e a pedra so sadios.
     LEONTES - Uma ralheta de infindvel lngua, que bateu no marido e ora me atia. No  minha essa criana;  de Polxenes; retirai-a daqui e, juntamente com 
a me, lanai-a ao fogo.
     PAULINA -  vossa filha, sim. O antigo provrbio poderia ter hoje aplicao: "To parecida convosco, que d pena". Contemplai-a, senhores: muito embora seja 
a cpia por demais reduzida, o texto inteiro reproduz o do pai. A boca, os olhos, o todo carrancudo, a testa, o riso, as covinhas das faces e do queixo, o feitio 
exatssimo dos dedos, das unhas, da mo toda...  Natureza, deusa bondosa, que fizeste, para tanto ela ao genitor ser parecida? Se a alma tambm plasmares, o amarelo 
de entre as cores exclui, para que um dia, como ele, a suspeitar ela no venha que no so do marido os prprios filhos.
     LEONTES - Bruxa grosseira! E tu, sujeito -toa! Merecias a forca por no teres poder para faz-la ficar quieta.
     ANTGONO - Enforcai os maridos que no podem realizar essa proeza, e escassamente vos sobrar um sdito.
     LEONTES - De novo vos ordeno: tirai-a daqui logo!
     PAULINA - O mais desnaturado e indigno esposo no faria pior.
     LEONTES - Quisera-ver-te numa fogueira.
     PALINA - Pouco me incomodo. Hertico  quem lana fogo  pira, no quem nela se extingue. No vos chamo de tirano; porm o modo indigno por que tratais a esposa 
- sem poderdes acus-la de nada, afora a vossa prpria imaginao to mal parada - mostra certo sabor de tirania, deixando-vos ignbil, mais do que isso: vergonha 
para o mundo.
     LEONTES - Pelo vosso penhor de vassalagem, retirai-a daqui, sem mais tardana. Se eu, de fato, fosse tirano, ela estaria viva? Se tivesse certeza de que eu 
o era, no me viria agora dizer isso. Levai-a daqui logo!
     PAULINA - Por obsquio, no precisais puxar-me; irei sozinha. Tomai conta, senhor, de vossa filha;  vossa. Possa Jove conceder-lhe melhor anjo da guarda. Para 
que essas mos sobre mim? Mostrando-vos zelosos a esse ponto com todas as loucuras que ele fizer, s lhe sereis nocivos. Deixai! Deixai! Meus. J nos partimos. (Sai.)
     LEONTES - Traidor, isso  obra tua. Espicaaste contra mim tua esposa. Minha a filha! Levai-a daqui logo! E se te mostras to compassivo assim, carrega-a. Vamos! 
E que depressa as chamas a consumam. Tu, justamente! Tu! Carrega-a logo! Antes de uma hora volta com a notcia de que foram cumpridas minhas ordens. Mas bem testemunhado! 
Do contrrio, hei de tirar-te a vida e o que mais tenhas. Se te recusas, pretendendo contra minha clera opor-te, dize logo, que com estas mos farei saltar o crebro 
desta bastarda. Leva-a para o fogo, j que atiaste contra mim tua esposa.
     ANTGONO - No fiz tal, meu senhor. Estes fidalgos, meus nobres companheiros, se o quiserem, podem justificar-me.
     PRIMEIRO NOBRE - Sim, podemos, meu soberano; no tem culpa alguma da vinda da mulher.
     LEONTES - Sois mentirosos, sem exceo de um s.
     PRIMEIRO NOBRE - Vossa Grandeza poderia ter-nos em melhor conta. Sempre vos servimos fielmente; fora justo que nesta hora reconhecsseis isso. Suplicamo-vos 
de joelhos, como prmio dos servios - passados e futuros - que esse intento vos apraza mudar.  horrvel, to sanguinrio, para que no tenha conseqncias nefastas. 
Ajoelhamo-nos todos a um tempo.
     LEONTES - Sou pluma que se agita a qualquer vento? Terei de ver um dia essa bastarda vir ajoelhar-se em minha frente, para dar-me o nome de pai?  prefervel 
queim-la agora, a ter de amaldio-la. Pois veja. Fique viva. Ser o mesmo: no viver. (A Antgono) Senhor, aproximai-vos. J que mostrais to grande empenho, 
ao lado dessa parteira, dona Margarida, para salvar a vida da bastarda - pois  o que ela ; to certo como achar-se grisalha minha barba - que fareis para salvar 
a vida desta coisa?
     ANTGONO - Tudo o de que eu fosse capaz, milorde, e que a honra no condene. Ao menos isto: empenharei o sangue que me resta, para a vida salvar desta inocente. 
Tudo o que for possvel.
     LEONTES - Vou mandar-te fazer algo possvel. Jura agora por esta espada que hs de obedecer-me.
     ANTGONO - Obedeo, senhor.
     LEONTES - Toma bem nota, e cumpre o que eu mandar - ests ouvindo? - pois o no cumprimento de uma parte qualquer das instrues, implica morte no para ti, 
apenas, para a tua mulher de lngua solta, a que perdoamos por esta vez. Ordeno-te, portanto, j que s nosso vassalo, de pegares esta bastarda e a transportares 
para qualquer lugar deserto e bem distante, fora de nossas terras, a deixando-a sem mais piedade, entregue  sua prpria proteo e  merc do spero clima. Acaso 
estranho a nossas mos a trouxe. Com justia, pois, ora te encarrego - sob ameaa de morte e de torturas - de estranhamente nalgum ponto a pores, onde o acaso a 
alimente ou a estru-la venha. Vamos: leva-a daqui!
     ANTGONO - Juro faz-lo, embora a morte rpida lhe fosse caridade maior. Que algum esprito potente ensine aos corvos e aos milhanos a te servirem de ama. Os 
prprios ursos e os lobos, dizem, da ferocidade natural se despindo, j mostraram tais provas de piedade. Feliz sede, senhor, mais do que o pede esta faanha. E 
que a bno celeste te proteja, pobre coisinha condenada  morte. (Sai, levando a criana.)
     LEONTES - No, no hei de criar filhos dos outros.
     (Entra um criado.)
     CRIADO - Se Vossa Alteza o permitir, h uma hora chegou o correio, novas nos trazendo da embaixada que enviastes ao orculo. J voltaram de Delfo Dion e Clemenes; 
pisaram terra e marcham para a corte.
     PRIMEIRO NOBRE - Com permisso, senhor, mas essa pressa ultrapassa qualquer expectativa.
     LEONTES - Vinte e trs dias lhes durou a viagem. Tal rapidez  indcio de que Apolo deseja que a verdade logo surja. Convocai logo uma sesso, senhores, ante 
a qual possa aparecer a nossa muito desleal esposa. Tendo sido de pblico acusada,  necessrio que a sentena tambm seja solene. Ser-me- o corao peso angustioso 
enquanto ela viver. Deixai-me agora e refleti em tudo o que vos disse.
     (Saem.)

      
ATO III
Cena I
      
Siclia - Rua numa cidade. Entram Clemenes e Dion.
      
     CLEMENES - O clima  delicado, o ar muito ameno, por demais frtil a ilha, ultrapassando de muito o templo os usuais encmios.
     DION - Elogiar-me apraz o que mais fundo me impressionou: as vestes celestiais - esse  o termo apropriado, me parece - e a dignidade de seus graves donos. 
E o sacrifcio? Quo cerimonioso, solene e extraterreno foi o ofcio!
     CLEMENES - A voz atroadora, sobretudo, do orculo, que lembra o prprio estrondo dos troves do alto Jove, surpreendidos os sentidos deixou-me, aniquilando-me.
     DION - Se o resultado dessa nossa viagem for to feliz para a rainha - Oh! seja dessa maneira, sim! - como agradvel nos foi, rpida e rara, no teremos perdido 
nosso tempo.
     CLEMENES - Grande Apolo, d bom xito a tudo! No me agradam essas proclamaes que insistem tanto sobre faltas de Hermone.
     DION - A violncia com que  levado avante esse processo, vai pr fim ao assunto ou esclarec-lo. Quando for lido o orculo, selado pelo antiste de Apolo, algo 
mui raro ficar conhecido. Vamos logo. Cavalos frescos, e que venturoso seja o fim de tudo isto.
     (Saem.)

      
Cena II
      
Siclia. Uma corte de justia. Leontes, nobres e oficiais.
      
     LEONTES - Esta sesso - com grande pesadume  que o dizemos - nos abala o peito. A r  filha de um monarca e nossa muito prezada esposa. A pecha tira-nos de 
tirania o fato de ser pblico todo o processo, que h de seguir nisso seu curso natural, at  sentena condenatria ou  plena absolvio. Trazei a prisioneira.
     OFICIAL - Apraz a Sua Alteza que a rainha aparea em pessoa ante esta corte. Silncio!
     (Entram Hermone, com guardas, Paulina e damas de companhia.)
     LEONTES - Lede a acusao.
     OFICIAL - "Hermone, esposa do digno Leontes, Rei da Siclia, s acusada e aqui citada por crime de alta traio, por teres cometido adultrio com Polxenes, 
Rei da Bomia, e conspirado com Camilo para tirar a vida do rei, nosso soberano senhor, teu real esposo. Tendo sido esse propsito descoberto em parte pelas circunstncias, 
tu, Hermone, contrariamente  fidelidade e  obedincia prprias de um leal sdito, entraste em conchavo com eles e os ajudaste, para sua maior segurana, a fugir 
durante a noite?"
     HERMONE - J que quanto eu pudesse ora dizer-vos consistiria apenas no protesto contra essa acusao, no me amparando E nenhuma testemunha, afora eu prpria, 
quase no me aproveita declarar-me "No culpada". Uma vez que est estimada minha virtude como hipocrisia, quanto eu viesse a dizer, do mesmo modo ser interpretado. 
Apenas isto: se os poderes divinos se interessam pelos atos humanos, como o fazem, no duvido de que minha inocncia far corar a acusao indbita e tremer, ante 
a calma, a tirania. Vs, meu senhor, sabeis perfeitamente - conquanto simuleis ora o contrrio - que toda minha vida foi to pura, to leal e casta, quanto desgraada 
presentemente sou, mais do que todos os exemplos da histria, sem excluirmos os casos de inveno postos em cena, para abalar o pblico. Ora vede-me: companheira 
de leito de um monarca, tendo direito a parte igual no trono, filha de um grande rei e me de um prncipe esperanoso, compareo  barra de um tribunal, para falar 
acerca da honra e da vida, ante qualquer pessoa que me deseje ouvir. A vida, estimo-a como dor, que de grado evitaria; quanto  honra,  herana que transmito aos 
meus. Por isso, defend-la me proponho. Senhor, apelo para vossa prpria conscincia. Antes de haver a vossa corte Polxenes chegado, no me achava na vossa graa, 
e digna no me tinha dela sempre mostrado? E, aps sua vinda, por que conduta extraordinria, acaso, me mostrei censurvel, para, agora, ser citada a esta crte? 
Se os limites da honra ultrapassei de um fio, apenas; se por aes ou pensamentos a isso me sentisse inclinada, endurecido torne-se o corao dos que me escutam, 
e que as pessoas que me so mais prximas a pelo sangue me insultem sobre o tmulo.
     LEONTES - Jamais ouvi dizer que esses ousados vcios fossem dotados de impudncia menor para negar seus prprios atos, que para os praticar.
     HERMONE -  muito certo; conquanto isso, senhor, no se me aplique.
     LEONTES - No quereis confessar.
     HERMONE - No me  possvel reconhecer seno os meus defeitos inevitveis. Quanto ao Rei Polxenes, de quem me fazeis cmplice, confesso que amor lhe dedicava 
tal como ele de mim, sem quebra de honra, esperaria, uma espcie de amor que condissesse com minha posio, amor em nada diferente do que vs prprio haveis recomendado 
que lhe revelasse. Se ento eu me tivesse conduzido por outro modo, certo eu me mostrara desobediente em relao a vs e ingrata para o amigo, cujo afeto, desde 
que falar pde, desde a infncia, se declarou por vosso, livremente. Quanto  conspirao, o gosto ignoro-lhe, muito embora me fosse ela servida, porque dela provasse. 
S o que posso dizer  que Camilo  homem probo. Mas a razo de haver ele deixado vossa corte, se os deuses, sobre o assunto, souberem o que eu sei, so ignorantes.
     LEONTES - Sabeis, sim, da parte dele, como tambm sabeis quanto era preciso fazer em sua ausncia.
     HERMONE - No compreendo, senhor, vossa linguagem. Minha vida se acha a tiro, to-s, de vossos sonhos; aqui vo-la deponho.
     LEONTES - Vossos atos so meus sonhos; sonhei que de Polxenes tivestes um bastardo. Distanciada vos achais da vergonha - que as mulheres dessa laia o esto 
sempre - como longe da verdade dos fatos. Contest-los vos compete, sem que isso, agora, possa vos ser de algum proveito, pois tal como jogado fora foi o teu produto 
- destino justo - por ser carecente de um pai que o reclamasse - maior culpa te cabe neste ponto do que a ele - agora vais sentir nossa justia, que em seu curso 
mais brando, nada menos do que pena de morte te comia.
     HERMONE - Poupai vossas ameaas; o espantalho com que me amedrontais, eu o procuro. J no posso ter gosto nesta vida; sua coroa e mxima ventura - vossa confiana 
- dou como perdida, pois sinto que se foi, embora ignore como isso aconteceu. Minha segunda alegria, primcias deste corpo, me foi tirada, como se terrvel infeco 
eu tivesse. Meu terceiro consolo, malfadada pelos astros, dos seios me arrancaram - leite puro na boquinha to pura! - para  morte ser arrastada. Eu prpria, proclamada 
pelos postes como uma prostituta; um dio cego me negou o direito de parto, concedido s mes de todas as posies. Por fim, fui arrastada para aqui, em pleno ar, 
antes de as foras haver recuperado. Ora dizei-me, meu soberano, que felicidades esperar posso, ainda, desta vida, para temer a morte? Por tudo isso, prossegui; 
mas ouvi-me estas palavras; minha vida, avalio-a como palha. Quanto  minha honra, desejara v-la sem mancha alguma. Sendo eu condenada por suspeitas, apenas, dormitando 
todas as provas favorveis, menos as que vosso cime ora desperta, digo que isso  crueldade, no justia. A vs nobres, declaro que confio plenamente no orculo. 
H de Apolo ser meu juiz.
     PRIMEIRO NOBRE -  justo esse desejo. Em nome, pois, de Apolo, que se tornem conhecidas de vez suas palavras.
     (Saem alguns oficiais.)
     HERMONE - O Imperador da Rssia foi meu pai. Oh! Se vivo estivesse e, agora, visse sua filha ante os juzes! Contemplara minha total misria; mas com olhos 
brandos de compaixo, no de vingana.
     (Voltam os oficiais, com Clemenes e Dion.)
     OFICIAL - Agora ides jurar sobre esta espada da justia, Clemenes e Dion, que estivestes em Delfo e que trouxestes de l, realmente, este selado orculo, recebido 
das mos do sacerdote do grande Apolo, e que de ento at hoje no tivestes o ousio de viol-lo, quebrando o sacro selo, para o texto secreto conhecerdes.
     CLEMENES e DION - Sim, juramos.
     OFICIAL - "Hermfone  casta; Polxenes, sem mancha; Camilo, um sdito leal; Leontes, um tirano ciumento; seu inocente filho, legitimamente concebido; e o rei 
viver sem herdeiro, se no for achado o que foi perdido."
     NOBRES - Bendito seja o grande Apolo!
     HERMONE - Seja louvado eternamente.
     LEONTES - Leste certo?
     OFICIAL - Sim, milorde; tal como se acha escrito.
     LEONTES - No h verdade alguma nesse orculo. Continue a sesso.  s mentira.
     (Entra um criado.)
     CRIADO - Senhor! O rei! O rei!
     LEONTES - Que acontece?
     CRIADO -  senhor, vou tornar-me odiado, apenas por vos dar a notcia; mas o prncipe, vosso filho, de medo e de tristeza pela sorte da rainha, acabou indo.
     LEONTES - Acabou indo, como?
     CRIADO - Sim, morreu.
     LEONTES - Apolo est zangado; o prprio cu me castiga a injustia. (Hermone desmaia.) Ento? Levai-a!
     PAULINA - A nova foi fatal para a rainha. Vede o que a morte est fazendo nela.
     LEONTES - Retirai-a daqui. Muito oprimido tem ela o corao. Vai refazer-se. Dei crdito excessivo s minhas prprias suspeitas. Por obsquio, ministrai-lhe 
drogas que a faam retornar  vida. (Saem Paulina e as damas, sustentando Hermone.) Perdoa, Apolo, a minha irreverncia com relao ao teu sagrado orculo. Hei 
de reconciliar-me com Polxenes, reconquistar a esposa, o bom Camilo chamar de novo, proclamando-o sdito verdadeiro e bondoso, pois, levado por pensamento sanguinrio 
 idia de vingana escolhi Camilo para dar veneno ao meu quase irmo Polxenes, o que teria sido executado, se Camilo, de esprito bondoso, no houvesse atrasado 
minhas ordens precipitadas, ainda que com prmios e ameaas rigorosas eu tivesse querido intimid-lo e encoraj-lo Nada fazendo, tudo fez; Camilo, com muita humanidade 
e a honra escutando, contou todo o meu plano ao meu real hspede, abandonou seus bens, que eram vultosos, como o sabeis, e se confiou de todo ao jogo certo da fortuna 
instvel, sem mais riqueza que a honra. Como a minha ferrugem lhe ressalta o brilho prprio! Como a sua piedade torna as minhas aes mais pretas ainda!
     (Volta Paulina.)
     PAULINA - Que desgraa! Vinde desapertar-me o lao, para que, fazendo-o romper, no se me estale de todo o corao.
     PRIMEIRO NOBRE - Que houve, senhora?
     PAULINA - Tirano, que tormentos inventaste para minha tortura? Que fogueiras, rodas, tratos, flagelos, que fervuras, em leo ou chumbo, para mim se aprestam? 
Que martrios, antigos ou recentes, me esperam, se cada uma das palavras que eu disser, em resposta, s merece quanto de pior tiveres inventado? A tua tirania, trabalhando 
com teu cime de comum acordo - fantasias mui fracas para crianas, tolas e ociosas para raparigas de nove anos - Oh! v o que fizeram e, depois, enlouquece inteiramente! 
- pois as tuas tolices anteriores condimento, to-s, foram desta ltima. O teres sido falso para o amigo - Polxenes - foi nada; pois, com isso, te revelaste, apenas, 
inconstante, infernalmente ingrato e mentecapto. Outrossim, no foi muito desejares envenenar a honra de Camilo, querendo que ele a um rei a morte desse - pecado 
-toa, logo ultrapassado por outros mais monstruosos, como teres jogado aos corvos tua prpria filha - pouco ou nada, realmente, embora um diabo primeiro ao fogo 
arrancaria lgrimas, antes de fazer isso. No te culpo, tambm, diretamente, pela morte do prncipe gentil, cuja noo de honra - noo muito alta para a idade - 
partiu-lhe o corao, ao pensamento de que um pai to grosseiro quanto louco sua me graciosa houvesse difamado. No, tambm disso no te fao carga. Mas o ltimo 
-  senhores! deveis todos gritar "Desgraa!" ao dizer eu qual seja - a rainha, a rainha, a mais querida e inefvel criatura, j no vive... E a vingana ainda no 
caiu sobre ele!
     PRIMEIRO NOBRE - Que os poderes de cima o no consintam!
     PAULINA - J disse que morreu, e agora o juro. Mas se nem juras, nem palavras, podem convencer-vos, vs mesmos ides v-la. Se conseguirdes dar-lhe cor aos lbios, 
ou brilho aos olhos, o calor externo, por dentro o hlito vivo, hei de servir-vos como o faria a deuses. Mas no tenhas remorsos,  tirano, por tudo isso! So fatos 
por demais pesados, para que com tua dor consigas abal-los. Entrega-te somente ao desespero. Mil joelhos, dez mii anos sem parada, inteiramente nu, jejuns terrveis 
numa montanha desolada, inverno perptuo, tempestade irreprimvel, no poderiam demover os deuses a olhar para o lugar em que estiveres.
     LEONTES - Vai-te, vai-te; jamais dirs bastante. Mereo quanto de pior disserem todas, todas as lnguas.
     PRIMEIRO NOBRE - Ficai quieta! Por mais que tenha acontecido, falta mui grave cometeste, com tamanho despejo de linguagem.
     PAULINA - D-me pena; quando cometo alguma falta, logo que venho a conhec-la, me arrependo. Que desgraa! Mostrei como as mulheres so, no comum, demais precipitadas 
O nobre corao mostra abalado. O que passou e j no tem remdio, lastimar no devemos. Dor alguma deveis mostrar, senhor, ante o que eu disse. Pelo contrrio, 
peo-vos punir-me por vos haver lembrado o que deveis deixar no esquecimento. Meu bondoso soberano, senhor, meu real senhor, perdoai a uma estouvada; mas o afeto 
que a vossa esposa... Oh! novamente louca! Maior estouvamento! No desejo falar dela outra vez, nem dos meninos, vossos filhos; no hei de recordar-vos, tambm, 
de meu senhor, que est perdido, do mesmo modo. Sede, pois, paciente, que no direi mais nada.
     LEONTES - No, falaste somente o que se deu. Prefiro todas essas verdades a que me lastimes. Por obsquio, levai-me para a sala onde est o corpo dela e o do 
menino. Tero um s sepulcro; sobre a lpide gravada vai ficar a verdadeira causa da morte de ambos, para nossa vergonha sempiterna. Diariamente, hei de a capela 
visitar em que eles se acharem repousando. Meu consolo vai consistir nas lgrimas vertidas sobre essa laje. E enquanto a natureza me permitir fazer esse exerccio, 
prometo repeti-lo diariamente. Conduzi-me a essas dores.
     (Saem.)

      
Cena III
      
Bomia. Lugar deserto, perto do mar. Entram Antgono, com a criana, e um marinheiro.
      
     ANTGONO - Ests bem certo de que o nosso barco veio ter aos desertos da Bomia?
     MARINHEIRO - Sim, senhor; e receio que tenhamos descido em ruim hora. Enfarruscado vejo o cu, e a ameaar-nos iminente tempestade. Sinceramente o digo: ele 
reprova o nosso empreendimento; por isso est sombrio.
     ANTGONO - Seja feita sua vontade. Volta para bordo; vai vigiar teu barco; no demora, e estarei de retorno.
     MARINHEIRO - Ponde pressa no que fizerdes, sem vos arriscardes demais pelo interior, pois  certeza vir por a borrasca. Alm de tudo,  conhecida esta regio, 
por causa dos animais de preia que aqui vivem.
     ANTGONO - Volta, que j te sigo.
     MARINHEIRO - Estou contente, de corao, por no ter parte nisso. (Sai.)
     ANTGONO - Vem, coitadinha! Embora eu nunca tenha dado crdito, ouvi dizer que o esprito dos mortos aqui voltam. Se for certo, tua me me apareceu na ltima 
noite, pois nunca tive um sonho assim to prximo do estado de viglia. Aproximou-se-me um vulto que a cabea balouava para um lado e para outro. Nunca vira um 
vaso de tristeza assim to cheio e de aspecto de tanta dignidade. Com vestes de cor branca, cintilante como a prpria pureza, aproximou-se do camarote em que eu 
dormindo estava. Diante de mim trs vezes inclinando-se e tentando falar, se lhe tornaram duas fontes os olhos. Mas contendo-se, o silncio rompeu desta maneira: 
"J que o destino, meu bondoso Antgono, te escolheu, contra o teu melhor intuito, para jogares fora minha filha - ao que, por juramento, estavas preso - lugares 
afastados h bastantes na Bomia. Num deles, entre lgrimas, deixa-a, a chorar. E como para todos ela perdida est, o nome d-lhe de Perdita, te peo. Mas por este 
servio ingrato, que por meu marido te foi imposto, nunca mais tua esposa Paulina hs de rever" E assim, com guinchos, desapareceu no ar. Aterrorado, logo me recompus, 
tendo concludo que sonhado no fora tudo aquilo, seno pura verdade. Brincadeiras so sempre os sonhos, mas com este, apenas, supersticiosamente embora, quero com 
acerto orientar-me. Estou convicto de que Hermfone  morta e que  vontade de Apolo, j que  filha de Polxenes esta criana, que seja aqui deixada - para viver 
ou para ser destruda - em terra do verdadeiro pai. Boto, floresce! (Deposita a criana no cho.) Fica a. Eis teu nome. Toma isto, tambm. (Depe um embrulho junto 
da criana.) Se for do gosto da fortuna, dar para te criar, ainda sobrando-te alguma coisa. A vem a tempestade. Coitadinha! Por causa dos pecados de tua me, exposta 
 morte e ao resto. Chorar no me  possvel, porm sangra-me o corao. Maldito eu sou por ver-me forado a fazer isto. Adeus. O dia se embrusca mais e mais. Vais 
ser amada com uma cano muito spera. To negro, durante o dia, nunca o cu esteve. Que selvagem clamor! O mais prudente ser ir para bordo.  uma caada. Estou 
perdido! (Sai, perseguido por um urso.)
     (Entra um pastor.)
     PASTOR - Desejara que no houvesse idade entre dezesseis e vinte e trs anos, ou que a mocidade dormisse todo esse tempo, que s  ocupado em deixar com filhos 
as raparigas, aborrecer os velhos, roubar e provocar brigas. Escutai! A quem ocorreria caar com semelhante tempo, se no a esses crebros ferventes, de dezenove 
a vinte e dois anos? Fizeram tresmalhar-se dois dos meus melhores carneiros, e eu receio que o lobo os encontre primeiro que seu dono. Se eu tiver de encontr-los, 
h de ser para o lado da praia, onde vo pastar a erva. Boa sorte, se assim o quiseres. Mas, que temos aqui? (Levantando a criana.) Misericrdia! Uma criana! Uma 
linda criana! Ser menino ou menina? Uma menina linda, muito bonita, mesmo. Decerto, algum passo em falso. E embora eu no seja letrado, posso ler que se trata 
de passo em falso de alguma dama de posio. Houve algum trabalho de escada, ou de ba, no ngulo de qualquer porta. Mais calor tinham os que geraram isto do que 
esta pobre coisinha. S por piedade vou ficar com ela, mas vou esperar at que meu filho chegue. Neste momento ele gritou. Ol! Oh!
     (Entra o bobo.)
     BOBO - Ol! Oh!
     PASTOR - Como! Estavas to perto? Se quiseres ver uma coisa de que falars at depois de morto e podre, vem aqui. Por que ests a chorar, homem?
     BOBO - Eu vi duas dessas vises, no mar e em terra; mas no posso dizer se foi no mar, porque agora tudo  cu, entre a terra e o firmamento no se pode enfiar 
a ponta de um alfinete.
     PASTOR - Que queres dizer com isso, rapaz?
     BOBO - Desejara que vsseis como ela ronca, como se enfurece, como bate na praia. Mas isso no importa. Oh! os gritos lastimveis das pobres almas! s vezes, 
percebendo-os; outras vezes, sem distinguir ningum; agora, o navio a tocar a lua com o mastro principal, para, logo, ser sorvido pela escuma e pela geada, como 
quando a gente atira uma rolha dentro de um barril. E agora, o que se passou em terra: assistir como o urso lhe lacerava as espduas; como ele me gritava por socorro, 
e dizia que era nobre e se chamava Antgono. Mas, para acabar com o navio: ver como o mar o absorvia, porm, antes, como as pobres al mas rugiam e o mar zombava 
deles; e como o cavalheiro rugia, e o urso zombava dele, rugindo ambos mais alto do que o mar e a tempestade.
     PASTOR - Em nome da Misericrdia! Quando se passou isso, rapaz?
     BOBO - Agora mesmo; ainda no tive tempo de piscar uma vez, desde que vi essas coisas. Os homens ainda no tiveram tempo de esfriar de baixo da gua, nem o 
urso de jantar a metade do gentil-homem. Foi neste momento.
     PASTOR - Quisera ter estado presente, para ajudar o velho.
     BOBO - Quisera que tivsseis estado ao lado do navio, para ajud-lo, tambm; porque ento a vossa caridade no tomaria p.
     PASTOR - Histrias tristes! Histrias tristes! Mas olha para aqui, rapaz, e abenoa a tua felicidade. Encontraste em teu caminho s coisas que se extinguem; 
eu, algo que comea a viver. Eis um espetculo para ti; contempla isto, uma capa de batismo prprio para a filha de um fidalgo. Olha! Toma, rapaz! Toma! Abre isso. 
Vamos ver. J me profetizaram que as fadas me deixariam rico. Deve ser alguma criana enjeitada. Abre logo. Que  que h dentro, rapaz?
     BOBO - Sois um velho rico. Se os pecados da mocidade vos forem perdoados, ireis viver muito bem. Ouro! Tudo ouro!
     PASTOR -  ouro de fadas, rapaz, como o tempo o provar. Vamos, carrega firme! Para casa, logo, pelo caminho mais curto. Tivemos sorte, rapaz; e para continuarmos 
sempre assim, bastar sermos discretos. Deixa os carneiros correrem. Vamos, meu bom menino; vamos logo para ca sa, pelo caminho mais curto.
     BOBO - Segui direto com o vosso achado, que eu vou ver se o urso j deixou o gentil-homem, e quanto comeu dele. S so temveis, quando esto com fome. Se sobrou 
alguma coisa do homem, dar-lhe-ei sepultura.
     PASTOR -  uma boa ao. Se puderes identific-lo pelo que houver sobrado dele, vai buscar-me, para que eu tambm o veja.
     BOBO - Muito bem; farei isso mesmo, e vs me ajudareis a sepult-lo.
     PASTOR - Hoje  um dia feliz, rapaz, em que nos cumpre praticar boas aes.
     (Saem.)

      
ATO IV
      
Entra o Tempo, como coro.
      
     TEMPO - Eu, que a todos castigo, alegro e espanto bons e maus, erro muito e, no entretanto, descubro os erros, ora determino usar as asas com bastante tino, 
sob a forma do Tempo. Por tudo isso,  conta no leveis de mau servio dezesseis anos haver eu pulado, sem ao menos deixar assinalado quanto passou durante esse 
intervalo, que em meu poder est, sem grande abalo, dobrar a lei, numa hora muito minha, e hbitos velhos alterar asinha. Aceitai-me qual sou, qual tenho sido antes 
de o uso vetusto haver nascido e o que ora ainda impera. Estive junto da hora que os viu nascer e do conjunto, tambm, do que h de vir, pois tudo passa, sendo certeza 
que eu deixarei baa toda esta luz, tal como na memria dos presentes se encontra a antiga histria. Assim, se o permitir vossa pacincia, virarei a ampulheta, porque 
urgncia ponha no conto, como se dormindo passado houvsseis esse tempo infindo. Deixando Leontes - que de tal maneira se mostra arrependido da cegueira de seu grande 
cime, que fechado se mantm todo o tempo - transportado, gentis espectadores, para a linda Bomia imaginai-me, e mais, ainda: deveis estar lembrados que de um filho 
do rei j vos falara. Assim, com brilho vos direi o seu nome: Florizel. Mas deixando de lado esse donzel, falemos de Perdita que, entretanto, adquiriu tanta graa, 
que de espanto enche quantos a vem. No direi nada do que se vai passar, que  hora azada tudo a saber vireis. Ora o argumento do Tempo  a filha de um pastor e 
um cento de coisas correlatas. Concedei-me toda vossa pacincia. E, ento, dizei-me se algum dia j vistes passatempo to mesquinho. Se no, o prprio Tempo vos 
diz que almeja, mui sinceramente, que outro no possais ver como o presente. (Sai.)

Cena I
      
Bomia. Um quarto no palcio de Polxenes. Entram Polxenes e Camilo.
      
     POLXENES - Por favor, meu bom Camilo, no insistas. Recusar-te alguma coisa, deixa-me doente; e morto, conceder o que me pedes.
     CAMILO - H quinze anos no vejo a minha ptria; embora eu tenha passado no estrangeiro a maior parte da vida, desejaria deixar l os ossos. Alm do mais, o 
rei penitente, meu senhor, mandou chamar-me. Poderei levar algum alvio para a sua tristeza; pelo menos tenho essa presuno, o que tambm me anima a partir.
     POLXENES - Se me amas, Camilo, no anules todos os servios que me prestaste, deixando-me neste momento. Tua prpria bondade  a causa de eu no poder dispensar-te. 
Melhor teria sido nunca te haver conhecido, do que vir a perder-te. Havendo tu dado incio a vrios assuntos que ningum mais poder levar a cabo, ser foroso ou 
ficares, para que tu mesmo os arremates, ou levares contigo os prprios servios que me prestaste. Se eu no te recompensei como o mereces - impossvel me fora fazer 
mais - procurarei esforar-me para mostrar-me mais reconhecido, lucrando com isso apertar ainda mais os laos da amizade que nos liga. Peo-te, portanto, que no 
me tornes a falar dessa terra fatal, a Siclia, cujo nome, s por si, me martiriza, por me fazer lembrado do rei penitente, como lhe chamaste, o meu reconciliado 
irmo. A perda de sua esposa insubstituvel, e de seus filhos, agora e sempre  de lamentar-se. Dize-me, quando viste meu filho, o Prncipe Florizel? Os reis so 
to infelizes quando verificam tendncias menos graciosas em seus filhos, como quando perdem os que eram adornados s de virtudes.
     CAMILO - Senhor, h trs dias que no vejo o prncipe. Quais possam ser suas felizes ocupaes, no sei diz-lo. Mas com pesar observei que ultimamente ele 
anda muito arredio da corte e que  menos assduo do que antes aos seus exerccios principescos.
     POLXENES - Observei isso tambm, Camilo, o que me deixou assaz preocupado, indo a ponto de vigiar o retraimento com os olhos dos meus auxiliares. Por estes 
soube que ele freqenta a casa de um humilde pastor, um homem que, segundo se propala, do nada, com grande estupefao dos vizinhos, chegou a uma situao inexplicvel.
     CAMILO - J ouvi falar, senhor, desse homem, que tem uma filha da mais rara beleza. A fama de tal beleza se espalhou muito mais do que fora de esperar da que 
se originasse de uma choupana humilde.
     POLXENES - Foi isso tambm o que me disseram. Receio que seja esse o engodo que atrai meu filho. Vais acompanhar-me at essa choupana, para, sem nos darmos 
a conhecer, conversarmos com o pastor. Penso que nos ser fcil obter de sua simplicidade que nos revele o verdadeiro motivo das visitas de meu filho. Peo-te, pois, 
que me ajudes neste passo pondo de lado a idia de voltares para a Siclia.
     CAMILO - De muito bom grado obedecerei a vossas ordens.
     POLXENES - Meu bravo Camilo! Teremos de nos disfarar.
     (Saem.)

      
Cena II
      
O mesmo. Uma estrada perto da cabana do pastor. Entra Autlico, cantando.
      
     AUTLICO - Quando os narcisos nascem no vale - Viva! - e a zagala corta a campina, Que belo tempo! - Ningum me fale -  neve plida o sangue anima. O linho 
branco da sebe pende - Viva! - Que canto, o dos passarinhos! Se os apanhasse! Quem no me entende? Cerveja lmpida aos canequinhos... Canta a calhandra. Que melodias! 
- Viva! - Respondem-lhe o galo e o tordo. Para mim cantam e minhas tias... E ns no feno... Que dia gordo! J servi o Prncipe Florizel, e no meu tempo s vestia 
veludo de trs pelos... Mas agora estou aposentado. Mas vou chorar s por isso? A lua brilha, querida. Quanto menos o servio, mais alegre ser a vida. Se licena 
o caldeireiro tem de andar de alforje s costas, confesso tudo, ligeiro, sem que me faam em postas. Negocio com camisas; quando o milhano faz o ninho, cuidado com 
as peas menores. Meu pai me ps o nome de Autlico... Tendo nascido ele, como eu, sob a influncia de Mercrio, foi tambm batedor de coisinhas sem valor. Os dados 
e as mulheres me deixaram deste modo, provindo toda a minha renda de roubos insignificantes. A forca e as varas so por demais poderosas na estrada larga do roubo. 
A idia de ser malhado ou enforcado, constitui para mim verdadeiro pesadelo. Na outra vida no quero pensar nisso. Uma presa! Uma presa!
     (Entra o bobo.)
     BOBO - Vejamos: cada onze carneiros do vinte e oito libras de l; cada vinte e oito libras de l rendem uma libra e um xelim... Quinhentos carneiros tosquiados, 
quanta l daro ao todo?
     AUTLICO ( parte) - Se o lao no escapar, o galo  meu.
     BOBO - No poderei fazer a conta sem o auxlio de um calculador. Vejamos: que precisarei comprar para a festa da tosquia de nossos carneiros? "Trs libras de 
acar, cinco de passas de Corinto, arroz..." - Que pretender esta minha irm fazer com arroz? Mas meu pai a ps como rainha da festa, e ela sabe o que faz. Ela 
me confeccionou vinte e quatro ramalhetes para os tosadores, que so cantores a trs vozes, e dos melhores. A maior parte so tenores e baixos, s havendo entre 
eles um puritano que canta salmos na cornamusa. Preciso de aafro para dar cor  torta de peras; de arilo e tmara, nada, que isso no est na nota; noz-moscada, 
sete; uma ou duas razes de gengibre - isso eu poderei pedir em qualquer parte - quatro libras de ameixas e outras tantas de passas.
     AUTLICO - Oh! Se eu nunca tivesse nascido! (Atira-se ao cho.)
     BOBO - Em meu nome!
     AUTLICO - Socorro! Socorro! arrancai-me estes trapos, e depois, a morte!
     BOBO - Ah, pobre alma! Precisas, mas  que te ponham mais trapos em cima do corpo no que te despojem dos que tens.
     AUTLICO - O senhor! mais me faz sofrer a repugnncia que por eles sinto do que os golpes que recebi, que, no entanto, foram bem violentos e se contaram por 
milhes.
     BOBO - Ah, pobre homem! Um milho de pauladas  coisa sria.
     AUTLICO - Fui roubado, senhor, e espancado. Arrancaram-me o dinheiro e as vestes, e me puseram sobre o corpo estes farrapos detestveis.
     BOBO - Foi algum pedestre que te fez isso ou algum homem de cavalo?
     AUTLICO - Foi um pedestre, meu caro senhor; pedestre.
     BOBO - Realmente, pela roupa que ele deixou contigo, deve ser mesmo pedestre. Se isso  cota de cavaleiro, j viu trabalho muito crespo. D me a mo; vou ajudar-te. 
Vamos; d-me a mo. (Ajuda-o a levantar-se.)
     AUTLICO -  meu bom senhor! Devagar!
     BOBO - Ah, pobre alma!
     AUTLICO -  meu bom senhor! Devagar, meu bom senhor; receio estar com a omoplata fora do lugar.
     BOBO - E agora? Podes ficar de p?
     AUTLICO - Docemente, meu senhor. (Rouba a bolsa de dentro do bolso do bobo.) Docemente! Acabastes de me prestar um servio caritativo.
     BOBO - Ests sem dinheiro? Posso dar-te algum.
     AUTLICO - No, meu bom senhor. No. Por obsquio, senhor. Tenho um parente que mora a uns trs quartos de milha daqui, para onde justamente vou indo. L, encontrarei 
dinheiro e tudo o mais de que precisar. No me ofereais dinheiro, por obsquio; isso me parte o corao.
     BOBO - Que espcie de sujeito era o que vos roubou?
     AUTLICO - Um tipo, senhor, que eu vi correndo a redondeza com o jogo de "Trou Madame". Sei que antes disso ele esteve a servio do prncipe. No poderei dizer-vos, 
meu caro senhor, por qual teria sido de suas virtudes; mas o certo  que ele foi expulso da corte a chibatadas.
     BOBO - Vcios, quereis dizer, sem dvida; a virtude nunca  expulsa da corte a chibatadas. Por l tratam-na muito bem, com o fito de ret-la quanto possvel; 
no entanto, est sempre de passagem.
     AUTLICO - Era vcio mesmo que eu queria dizer, meu senhor. Conheo muito bem esse tipo. Depois disso ele j andou por a tudo, carregando um macaco; depois, 
foi servente de processo, beleguim; depois, adquiriu um conjunto de tteres que representavam "O Filho Prdigo", e se casou com a mulher de um caldeireiro, a uma 
milha do lugar em que tenho minhas terras e meus bens, e depois de exercer todas as profisses velhacas, acabou tornando-se um maroto de marca maior. Algumas pessoas 
lhe do o nome de Autlico.
     BOBO - A forca para ele! Um ladro, por minha vida! Um ladro! Ele gosta de freqentar as festas noturnas, as feiras e os combates de urso.
     AUTLICO - Perfeitamente, senhor;  esse mesmo; foi esse o maroto que me deixou nestes trajes.
     BOBO - Em toda a Bomia no h maroto mais covarde; se o tivsseis encarado com firmeza e cuspido no rosto dele,  certeza que se poria a correr.
     AUTLICO - Devo confessar-vos, senhor, que no sou lutador. Para tanto, falta-me coragem, o que decerto ele bem sabia, podeis crer-me.
     BOBO - Como vos sentis agora.
     AUTLICO - Bem melhor do que antes, meu doce senhor; j posso ficar de p e andar um pouco. Poderei, at, despedir-me de vs, para dirigir-me devagarinho at 
 casa de meu parente.
     BOBO - Queres que te acompanhe at  estrada?
     AUTLICO - No, meu belo senhor; no, meu doce senhor.
     BOBO - Ento, adeus; preciso ir comprar temperos para a festa da tosquia dos nossos carneiros.
     AUTLICO - Muitas felicidades, meu doce senhor. (Sai o bobo.) Vossa bolsa no tem calor suficiente para comprar esses temperos. Hei de fazer-vos companhia em 
vossa festa. Se eu no conseguir desdobrar este roubo e no transformar os tosadores em carneiros, quero deixar de fazer parte da lista dos profissionais, para ter 
o nome inscrito no livro da virtude. Sigamos por este atalho, alegre o dia inteirinho, oh! Quem vive preso ao trabalho, alvo  sempre de escarninho, oh!

      
Cena III
      
O mesmo. Clareira diante da cabana do pastor. Entram Florizel e Perdita.
      
     FLORIZEL - Essas vestes estranhas vos emprestam maior relevo s graas. No pastora, sois Flora emps de abril. Essa tosquia to lacre  reunio de belos deuses, 
dos quais sois a rainha.
     PERDITA - Meu gracioso senhor, bem no me fica censurar-vos pelo vosso exagero. Sim, perdoai-me por falar desse modo. Mas vossa alta pessoa, adorno mximo do 
reino, abatestes com essas vestes rsticas, enquanto a mim, humilde rapariga, me enfeitastes qual deusa. Se esta festa no fosse constituda por loucuras, sempre, 
de toda sorte, que os convivas, por hbito, digerem, eu corara por vos ver desse jeito, desmaiando, quero crer, se ao espelho me enxergasse.
     FLORIZEL - Bendigo o instante em que o meu bom falco o vo dirigiu por sobre as terras de vosso pai.
     PERDITA - Que Jove vos confirme. No que me diz respeito, a diferena de nossas posies me deixa pvida. Vossa Grandeza no conhece o medo; mas tremo  idia 
de que poderia vosso pai, por capricho do momento, vir tambm por aqui. Oh Fados! Como no ficaria  vista de sua obra, com trajes to grosseiros? Que diria? E como 
eu conseguira, sob o peso deste luxo de emprstimo, encarar-lhe toda a severidade?
     FLORIZEL - S com coisas alegres devereis ora ocupar-vos. Os prprios deuses, humilhando a sua divindade ante o amor, variadas formas de animais assumiram. 
Jove em touro se mudou e mugiu; Netuno, o verde, baliu como carneiro; e o deus de vestes de chamas, o ureo Apolo, como humilde pastor se viu, tal como o fao agora. 
Nenhum deles jamais mudou de forma por beleza mais rara, nem por mveis to puros como os meus, pois meus desejos no marcham diante da honra, nem mais quente do 
que a f a paixo se me revela.
     PERDITA - Mas meu senhor, jamais vosso propsito firme assim ficar, se for chocar-se - o que ser fatal - de encontro ao grande poderio do rei. Uma de duas 
coisas forosamente h de passar-se: renunciareis de todo ao vosso intento, ou eu  prpria vida.
     FLORIZEL - Minha cara Perdita, no enubles, por obsquio, a alegria da festa com to loucas suposies. Minha lindeza, caso eu no possa ser teu, do mesmo modo 
no serei de meu pai, pois impossvel me ser pertencer-me, ou ser de algum, se a ti no pertencer. Persisto nisso, muito embora o Destino diga "No". Fica alegre, 
querida, e cuida agora de dissipar os pensamentos tristes com o auxlio do que vires. Nossos hspedes esto chegando. Faze alegre o rosto, como se j estivssemos 
no instante de celebrar as npcias que juramos para um futuro prximo.
     PERDITA -  Fortuna, sede-nos auspiciosa!
     FLORIZEL - Vede! Vossos hspedes se aproximam. Recebei-os com afabilidade e que o semblante irradie alegria.
     (Entram Polrenes e Camilo, disfarados, o pastor, o bobo, Mopsa, Dorcas e outros.)
     PASTOR - Ora, filha! Nas festas deste dia, quando ainda viva estava minha velha, ela era ao mesmo tempo despenseira, padeira, cozinheira, ama e criada; cumprimentava 
a todos e os servia, cantava suas coisas e danava suas voltas, tambm; ora se achava nesta ponta da mesa, ora no meio, ora apoiava-se ao ombro dos convivas, de 
toda gente. O rosto era s fogo, pela labuta e pelo que bebia para aplacar as chamas, no deixando ningum de acompanh-la nesses brindes. Vs ficais isolada, parecendo 
mais um dos convidados, do que mesmo a dona dos festejos. Por obsquio, d as boas-vindas a estes dois amigos desconhecidos, que esse  o melhor meio de nos tornarmos 
conhecidos deles e, assim, amigos certos. Vamos logo, apagai o rubor e revelai-vos o que sois: a rainha desta festa. Acolhei-nos alegre, por estarmos presentes aos 
festejos da tosquia. Assim, prosperar vosso rebanho.
     PERDITA (a Polxenes) - Sois bem-vindo, senhor. Meu pai quer que hoje fique eu sendo a rainha desta festa. (A Camilo.) Sois bem-vindo. D-me essas flores, Dorcas. 
Reverendos senhores, ofereo-vos arruda e rosmaninho; a cor e o cheiro essas flores conservam todo o inverno. Como lembrana e graa conservai-as de nossa parte. 
Sede, pois, bem-vindos.
     POLXENES - Pastora - sois uma pastora linda - muito de acordo com a nossa idade, flores do inverno nos oferecestes.
     PERDITA - Senhor, quando o ano vai ficando velho, sem ser a morte do vero ainda, nem do trmulo inverno o nascimento, as flores mais gentis so, to-somente, 
cravo vermelho e goivo variegado, a que muitos do o nome de bastardo da natureza. Dessa espcie, o nosso jardim silvestre nada ora apresenta. Nunca procuro obter 
muda nenhuma.
     POLXENES - Por que, gentil menina, as desprezais?
     PERDITA - Por ter sabido que nas suas cores, ao lado da criadora natureza a arte tambm influi.
     POLXENES - Que seja assim; mas em nada melhora a natureza, seno por meios que ela mesma cria. Assim, essa arte a que vos referistes, que ajuda a natureza, 
uma arte feita por ela prpria. Assim, gentil menina, enxertamos num galho em tudo rstico alguma planta rara, vindo a casca de baixa espcie alimentar o broto de 
uma raa mais nobre. Essa arte, certo, corrige a natureza... no, transforma-a; mas  uma arte que  a prpria natureza.
     PERDITA - Tendes razo.
     POLXENES - Enriquecei, portanto, vosso jardim com goivos, sem lhes dardes o nome de bastardos.
     PERDITA - Jamais hei de pegar do sacho para plantar uma muda sequer, tal como no quisera - se pintada estivesse - que este jovem me elogiasse por isso, declarando 
que a mim, por noiva, apenas, desejara. Aceitai estas flores: alfazema, hortel, segurelha, manjerona, e esta aqui, malmequer, que se recolhe com o sol, para com 
ele levantar-se tambm, cedo, a chorar. Flores so todas do meio do vero, prprias para homens de meia idade, creio. Sois bem-vindo.
     CAMILO - Esquecer-me-ia de pastar se fosse um dos vossos carneiros, e vivera s de vos contemplar.
     PERDITA - Oh, coitadinho! To magro ficareis, que as rajadas de janeiro, sem custo, vos passaram de lado a lado. Agora, belo amigo, para vs desejara ter algumas 
flores primaveris, que condissessem com vossa mocidade. E para vs, tambm, e para vs, que nesses cndidos ramos trazeis de vossa virgindade ainda os botezinhos. 
 Prosrpina! No dispor eu das flores que do carro de Dis, s de pavor, cair deixaste! Os narcisos que a aparecer se atrevem antes das andorinhas, e que os ventos 
de maro enleiam no seu grande encanto; as violetas escuras, mas mais doces do que de Juno as plpebras ou o hlito de Citeria; as descoradas prmulas, que fenecem 
solteiras, sem que tenham visto o brilhante Febo em sua fora - doena muito freqente entre as donzelas - verbasco altivo, imperial coroa, lrios de toda espcie, 
includa entre eles a flor-de-lis. Oh! faltam-me essas flores para tecer grinaldas, caro amigo, e com elas cobrir-te.
     FLORIZEL - Como a um corpo sem vida?
     PERDITA - No; no como a um corpo morto; como num leito onde brincasse amor. Ou ento... No para dar-lhe sepultura, mas para receb-lo nestes braos. Aceitai 
vossas flores, S parece que eu represento como vi nas festas da pastoral da Pscoa. Este vestido, certamente, me fez mudar de gnio.
     FLORIZEL - Sempre ultrapassa o que fazeis a tudo quanto est feito. Se falais, querida, desejaria que falsseis sempre; quando cantais, quisera que, cantando, 
vendsseis e comprsseis e, cantando, distribusseis esmolas, murmursseis vossas preces, bem como dirigsseis vossos negcios. Se danais, acaso, desejara que fosseis 
uma vaga, para que no fizsseis seno isso, em movimento sempre, sempre a mesma, sem mais funo alguma. Vosso modo de proceder, to singular em cada caso  parte, 
tal como o mais recente, coroa vossos feitos. Desse modo, vossas aes em tudo so rainhas.
     PERDITA -  Dricles, vossos encmios pecam pelo exagero! Se no fsseis jovem e no deixsseis vislumbrar um sangue to verdadeiro e leal, que vos revela qual 
pastor sem defeito, eu poderia mui sabiamente, meu querido Dricles, considerar que me fazeis a corte por um caminho errado.
     FLORIZEL - To sem jeito, quero crer, vos mostrais de ter receio, como eu de provoc-lo. Mas agora vamos danar; a mo, minha Perdita, por obsquio. Assim ficam 
duas pombas que no tencionam separar-se nunca.
     PERDITA - Por isso eu juro.
     POLXENES - Entre as campnias rsticas nunca donzela mais encantadora deslizou no relvado. Tudo quanto diga ou faa, revela uma criatura maior do que ela prpria. 
 muito nobre para o meio em que est.
     CAMILO - Algo ele diz-lhe que a faz ficar corada. No h dvida:  a rainha do leite e da coalhada.
     BOBO - Msica, vamos!
     DORCAS - Se danais com Mopsa, os beijos dela temperai com alho.
     MOPSA - Ora, que coisa!
     BOBO - Basta de palavras. Temos os nossos hbitos. Comecem! Msica, vamos!
     (Msica. Danam pastores e pastoras.)
     POLXENES - Bom pastor, por obsquio, quem  aquele rapaz bem apessoado que ora dana com vossa filha?
     PASTOR - Dricles lhe chamam; ele se orgulha de possuir pastagens de subido valor. Sei isso, apenas pelo que ele contou, mas acredito, pois parece sincero. 
Tambm o creio, pois nunca a lua se mirou no lago, como ele se detm a ler nos olhos de minha filha. Para dizer tudo: penso que meio beijo no decide qual dos dois 
mais amor dedica ao outro.
     POLXENES - Ela dana com muita graa.
     PASTOR -  certo; e assim faz tudo, embora no me fique bem falar desse modo. Se o mancebo Dricles vier a conquist-la, a noiva lhe levar de dote alguma coisa 
com que ele nem sonhou.
     (Entra um criado.)
     CRIADO -  senhor! Se pudsseis ouvir o bufarinheiro que est a fora, nunca mais danareis ao som do tamboril e da gaita. Sim, nem mesmo uma cornamusa vos 
poderia abalar. Canta melodias mais depressa do que vs contais dinheiro e as pronuncia como se houvesse engolido baladas, estando todos os ouvidos pendentes de 
suas modulaes.
     BOBO - No poderia ter chegado em melhor ocasio.  preciso faz-lo entrar. Aprecio enormemente as baladas, quando tratam de assunto triste, posto em msica 
alegre, ou de qualquer coisa agradvel cantada num tom melanclico.
     CRIADO - Sabe cantigas para homens e mulheres de todas as idades Nenhum comerciante de luvas serviria melhor os seus fregueses. Sa as mais lindas canes de 
amor para raparigas, e isso sem nenhuma cabrosidade, o que  raro, com um mundo de refres delicados, de dildos e tralals. "Bate nela! D socos nela!" e quando 
algum maroto de boca larga pretende, por assim dizer, tomar a coisa ao p da letras e pr em prtica o conselho, ele faz a rapariga responder. "Ol! No me faais 
mal, bom homem!" dar-lhe um empurro e escapar com um "Ol! No me faais mal, bom homem!"
     POLXENES - Um companheiro e tanto!
     BOBO - Podeis estai certo de que vos referistes a um tipo admirvel. Por acaso, no ter ele bordados para vender?
     CRIADO - Tem fitas de todas as cores do arco-ris; mais agulhetas que poderiam com erudio desembaraar todos os advogados da Bomia, ainda que lhes viessem 
s grosas; ls, algodo, cambraia. Ele canta como se fossem deuses e deusas. Imaginareis que uma cana  um anjo, de tal modo ele vos fala de suas mangas e dos bordados.
     BOBO - Por obsquio, traze-o logo, fazendo que ele entre a cantar.
     PERDITA - Convm adverti-lo de que no deve usai palavras inconvenientes em suas canes.
     (Sai o criado.)
     BOBO - Esses bufarinheiros, irm, trazem mercadorias que nem podeis imaginar.
     PERDITA - Sim, bondoso mano, ou que nem me darei ao trabalho imaginar.
     (Entra Autlico, cantando.)
     AUTLICO - O linho  branco de neve, ao corvo o crepe no deve; luvas de vrios matizes, mscaras para narizes, delicadas como rosas, para cutes melindrosas; 
braceletes e colares e perfumes para os lares, coifas douradas, corpinhos - rapazes, que presentinhos! - alfinetes, boa tala para os vestidos de gala... Comprai-me 
logo, rapazes, quanto ora fordes capazes, sem deixar que vossas belas fiquem tristes e amarelas. Comprai! Comprai!
     BOBO - Se eu no estivesse apaixonado por Mopsa, tu no me arrancarias um tosto; mas estando preso a ela, como me encontro, no poderei escapar da peia de 
algumas luvas e fitas.
     MOPSA - Que me foram prometidas antes da festa, mas que, ainda assim, no chegam com muito atraso.
     DORCAS - Ele te prometeu muito mais do que isso, se entre ns no houver mentirosos.
     MOPSA - E para vs ele deu tudo o que prometera, se  que no deu tambm alguma coisa, cuja restituio, agora, vos deixaria envergonhada.
     BOBO - As moas de hoje j no tero bons modos? Usaro elas as saias onde deveriam ter o rosto? No vos sobra tempo, por ocasio da ordenha, ou quando vos 
recolheis, ou quando limpais o forno, para falar baixinho sobre essas intimidades? Ser preciso tagarelar desse modo diante de todos os convidados? Por sorte, eles 
conversam baixo. Abafai as lnguas, e nem mais uma palavra!
     MOPSA - J terminei. Vamos; tnheis-me prometido um leno de seda para o pescoo e um par de luvas perfumadas.
     BOBO - No te contei como fui roubado no caminho, tendo ficado sem nenhum dinheiro?
     AUTLICO -  fato, senhor; h muitos malandros por a afora; por isso,  preciso estar sempre com os olhos abertos.
     BOBO - No tenhas medo, homem, que aqui no perdereis nada.
     AUTLICO - Assim o espero, senhor; porque trago comigo muita coisa de valor.
     BOBO - Que tens ai? Algumas baladas?
     MOPSA - Por favor, compra-me algumas; gosto muito de baladas impressas porque assim temos a certeza de que so verdicas.
     AUTLICO - Aqui est uma de toada muito triste: Como a mulher de um usurrio deu  luz vinte sacos de moedas de ouro de uma s vez e como ela desejava comer 
assados de cabeas de vboras e de sapos.
     MOPSA - E acreditais que isso seja verdade?
     AUTLICO - Pura verdade; aconteceu h um ms.
     DORCAS - Deus me livre de casar com um usurrio.
     AUTLICO - Vem citado aqui o nome da parteira, uma tal Mistress Taleporter, e de cinco ou seis mulheres que estiveram presentes ao parto. Por que haveria eu 
de espalhar mentiras?
     MOPSA - Por favor, compra essa.
     BOBO - Que seja, ento; deixa essa de lado; mas primeiro mostra-nos outras baladas. Depois compraremos alguma coisa mais.
     AUTLICO - Aqui est outra, de um peixe que apareceu na costa, na quarta-feira de oitenta de abril, a quarenta mil braas acima da gua, e cantou esta balada 
contra o duro corao das raparigas. H quem diga que ele tinha sido mulher, que fora transformada em um peixe frio por ter querido trocar carne com quem lhe dedicava 
amor. Essa balada  muito triste e igualmente verdica.
     DORCAS - E pensais que essa tambm seja verdadeira?
     AUTLICO - Cinco juzes a subscrevem, havendo mais testemunhas para o caso do que eu poderia carregar.
     BOBO - Deixa essa tambm de lado. Mostra-nos outra.
     AUTLICO - Esta aqui  uma balada alegre, mas muito interessante.
     MOPSA - Precisamos tambm de algumas alegres.
     AUTLICO - Esta  bastante alegre, sendo cantada com a msica de "Duas raparigas que faziam a corte ao mesmo homem". Em todo o Oeste no h quase rapariga que 
no a saiba de cor.  muito procurada, posso assegurar-vos.
     MOPSA - Ns duas poderemos cant-la; se quiseres fazer uma das vozes, poders ouvi-la.  a trs vozes.
     DORCAS - Aprendemos essa msica h um ms.
     AUTLICO - Posso cantar a minha voz; deveis saber que  esse o meu ofcio. Estou pronto.
     AUTLICO - J vou; no ireis comigo; para onde vou, no vos digo.
     DORCAS - Para onde?
     MOPSA - Oh! aonde?
     DORCAS - Para onde?
     MOPSA - No deverias ter medo de revelar-me um segredo.
     DORCAS - Nem a mim... Nin gum res pon de?
     MOPSA - Se vais  granja ou ao moinho,
     DORCAS - desviado ests do caminho.
     AUTLICO - Eu, no.
     DORCAS -  granja?
     AUTLICO - L, no.
     DORCAS - Juraste-me amor eterno.
     MOPSA - E que me serias terno. Para onde iremos, ento?
     BOBO - Em pouco tempo ns mesmos a cantaremos. Meu pai e o gentil-homem esto conversando assunto srio; no os perturbemos. Vem comigo e traze os teus embrulhos. 
Raparigas, vou comprar muita coisa para vs duas. Bufarinheiro, d-nos a primazia na escolha. Meninas, acompanhai-me.
     (Sai o Bobo, com Dorcas e Mopsa.)
     AUTLICO - E haveis de pagar bem caro. No quereis comprar-me fita para a capinha bonita, minha pombinha, tr-la? Seda fina, l espessa, enfeites para a cabea 
da ltima moda, tr-la. Todos ao bufarinheiro! Quem tiver muito dinheiro comprar tudo, tr-la!
     (Volta o criado.)
     CRIADO - Mestre, chegaram agora trs carreteiros, trs ovelheiros, trs boiadeiros e trs guardadores de porcos, que se disfararam em homens de cabelo. Eles 
mesmo se denominam Stiros e sabem uma dana que as raparigas, por no tomarem parte nela, dizem que no passa de uma misturada de pulos, conquanto elas prprias 
concedam que h de agradar muito, no caso de no ser a dana muito forte para quem est habituado a danas delicadas.
     PASTOR - Que se retirem! No queremos saber disso agora; j temos loucuras em excesso. Percebo que vos fatigamos, senhor.
     POLXENES - No fatigais seno os que vos distraem. Por obsquio, deixai-nos ver esses quatro ternos de pastores.
     CRIADO - Trs dentre eles, segundo eles prprios o disseram, j danaram na presena do rei, saltando o pior dos trs doze ps e meio de comprido.
     PASTOR - Parai com essa tagarelice. J que estes bons senhores se comprazem em v-los, fazei-os entrar, mas que seja logo.
     CRIADO - Como no! Eles j esto  porta, senhor. (Sai.)
     (Volta o criado com doze campnios disfarados de stiros. Estes danam e se retiram.)
     POLXENES (ao pastor) - Sim, pai; depois vos falarei sobre isso. (A Camilo.) J foram longe por demais.  tempo de separ-los. O pastor  simples e diz o que 
no deve. (A Florizel.) Ento, galante pastor? O corao tendes tomado por algo que da festa vos afasta. Pois em verdade, quando eu era moo e, como vs, ficava 
apaixonado, enchia minha bela de presentes. J teria saqueado as sedas todas daquele vendedor, sendo foroso que ela viesse a aceit-las. Mas deixastes que ele partisse 
sem comprar-lhe nada. Se vossa apaixonada interpretasse mal toda essa reserva, e a definisse como falta de amor, quando no fosse de generosidade, ficareis atrapalhado 
para responder-lhe, mormente se fizerdes grande empenho de vir a conquist-la.
     FLORIZEL - Venerando senhor, eu sei que ela d pouco apreo a essas quinquilharias. Os presentes que ela de mim almeja, bem guardados tenho-os no corao. Todos 
so dela, muito embora no os tenha ainda entregue. (A Perdita.) Permite que o imo peito eu patenteie diante deste senhor, que, tudo o indica, o amor j conheceu. 
A mo te pego, esta mo to macia quanto o peito das cndidas pombinhas, e to brancas como dentes de etope, ou qual neve que o vento norte joeira duas vezes.
     POLXENES - Que vir depois disso?, Com que delicadeza o pastorzinho lavar parece a mo, de si to branca? Mas vejo que vos distra. Ouamos o juramento, pois 
saber desejo como empenhais a f.
     FLORIZEL - Vou j faz-lo; nisso, me servireis de testemunha.
     POLXENES - Servir pode tambm o meu vizinho?
     FLORIZEL - No ele s, os homens, toda a terra, o firmamento, tudo: que se eu fosse coroado rei do mais possante imprio, e digno desse posto me mostrasse; 
se o mancebo mais lindo eu fosse, acaso, que olhar j enfeitiou, e dispusesse de saber e de fora mais que humanos, tudo eu desprezaria, se privado de seu amor 
me visse. A seu servio poria essas vantagens; dedicara tudo  sua pessoa, ou, decidido, sacrificara tudo, se a perdesse.
     POLXENES - Solene juramento!
     CAMILO - Que revela mui sincera afeio.
     PASTOR - E tu lhe dizes o mesmo, minha filha?
     PERDITA - -me impossvel falar to bem, nada fazer to bem, nem traduzir melhor os sentimentos; contudo, sei medi-los na pureza dos sentimentos dele.
     PASTOR - Aqui, as mos. Negcio feito. Ireis ser testemunhas, caros desconhecidos, do contrato. Minha filha lhe entrego, e o dote dela ao dele igualarei.
     FLORIZEL - Sim, podereis faz-lo apenas com a virtude dela. Quando algum falecer, hei de herdar tanto como nem mesmo em sonho podereis imaginar sequer; o 
suficiente para vos assombrar. Porm uni-nos diante destes senhores.
     PASTOR - Dai-me a mo. Filha, a vossa tambm.
     POLXENES - Um momentinho, mancebo, por obsquio. Tendes pai?
     FLORIZEL - Tenho, sim; mas, que importa?
     POLXENES - E ele se encontra ciente do que se passa?
     FLORIZEL - No, nem nunca vir a saber de nada.
     POLXENES - Parece-me que um pai, nas npcias de seu filho  o convidado que mais condiz  mesa. Respondei-me de novo, por obsquio: j se encontra vosso pai, 
porventura, inteiramente incapaz de tratar de assunto srio? A idade e o reumatismo deprimente deixaram-no abobado? Pode, acaso, falar? Entende o que se diz? Distingue 
bem as pessoas? Gere os seus negcios? Preso ao leito se encontra, e em quanto faa parece criana?
     FLORIZEL - No, meu bom senhor; tem bastante sade e ainda revela vigor acima dos da sua idade.
     POLXENES - Se for assim, por esta barba branca, no procedeis, em relao a ele, como a um filho compete. A razo manda que meu filho por si escolha esposa; 
mas a mesma razo fala bem alto que o pai - cuja maior felicidade consiste em ter uma bonita prole - tambm opine em semelhante caso.
     FLORIZEL - Concedo tudo; mas por outras causas; reverendo senhor, que no vos posso revelar, a meu pai no direi nada com respeito a este assunto.
     POLXENES - No; contai-Ihe.
     FLORIZEL -  impossvel.
     POLXENES - Falai-lhe, por obsquio.
     FLORIZEL - No poder saber o que se passa.
     POLXENES - Meu filho, usa com ele de franqueza; no ficar zangado ao ter cincia da escolha que fizeste.
     FLORIZEL - Vamos! Vamos!  impossvel. Firmemos nossa unio.
     POLXENES (descobrindo-se) - Vosso divrcio, moo, a quem no devo dar o nome de filho, pois te mostras vil demais para que eu te reconhea. Um herdeiro do 
cetro, que prefere cajado de pastor!... S o que me pesa, velho traidor,  reduzir-te a vida de uma semana apenas, como mandar-te pendurar numa forca. E tu, bonito 
tipo de feiticeira, que sabias muito bem que real tolo tinhas preso...
     PASTOR - Que dor no corao!
     POLXENES - Ho de os espinhos arranhar-te a beleza, at a igualarem  tua condio. - E tu, pateta, se eu souber que suspiras de saudades desta coisa nenhuma 
- que  certeza nunca mais a reveres - destituo-te da sucesso do trono, declarando-te estranho a nosso sangue e a nossa casa, e to distante dela como o prprio 
Deucalio. Toma nota do que eu digo: retoma para a corte. E tu, saloio, por esta vez, embora incorrido hajas em nosso desprazer, de ti desviamos a punio fatal. 
E vs, feitio - digna bastante para um pegureiro... Sim, para este tambm, que se revela - no se opusesse a tanto o nosso nome - pouco digno de ti - se em algum 
tempo descerrares os rsticos ferrolhos, para deix-lo entrar, ou se nos braos o prenderes de novo, hei de uma morte to cruel te reservar quanto franzina fores 
para enfrent-la. (Sai.)
     PERDITA - Aniquilada completamente, embora no ficasse muito atemorizada, pois estive uma ou duas vezes para lhe ser franca, dizendo-lhe que o mesmo sol que 
brilha sobre sua corte no esconde o rosto de nossa pobre choa e ambas contempla. No vos dignais, senhor, de partir logo? J vos havia dito como tudo viria a terminar. 
Cuidai, vos peo, de vossa posio, que este meu sonho... Uma vez despertada, no prossigo no papel de rainha um s momento; voltarei a ordenhar minhas ovelhas e 
a chorar.
     CAMILO - Pai, que  isso? Dize algo, antes de vir a morte.
     PASTOR - -me impossvel pensar ou dizer nada, sem que possa atrever-me a saber o que sabia...  prncipe! Matastes quem chegara aos oitenta e trs anos calculando 
baixar tranqilamente  sepultura, morrer no leito em que meu pai morrera, e ao lado de seus ossos venerandos encontrar o repouso. Mas agora, algum carrasco o corpo 
h de envolver-me num lenol e dep-lo onde no haja sacerdote que poeira jogue nele.  coisa desprezvel! Tu sabias que era o prncipe! Como te atreveste a fazer 
essa aliana? Estou perdido completamente! Se a morrer eu viesse neste instante, teria arrematado minha existncia como o desejara. (Sai.)
     FLORIZEL - Por que me olhais assim? Estou somente penalizado, mas no sinto medo. Houve atraso, mas no se alterou nada. O que eu era, ainda sou; tanto mais 
fora fao para avanar, quanto mais sinto que me puxem por trs.  com protestos que me sinto no ajoujo.
     CAMILO - Meu gracioso senhor, no ignorais como  o carter de vosso pai. Nestas primeiras horas no admite conversa, estando eu certo de que no pretendeis 
insistir nisso. Dificilmente, temo, h de ele vossa presena suportar. Ser prudente, pois, evit-lo at que fique calmo.
     FLORIZEL - No tenho essa inteno. Mas, sois Camilo?
     CAMILO - Ele mesmo, senhor.
     PERDITA - Oh! Quantas vezes vos disse que tudo isso se daria? Quantas vos repeti que s durara minha grandeza, at que se tornasse conhecida a verdade?
     FLORIZEL - Isso s for a possvel se perjuro eu me tornasse. Ento, que a natureza aperte os flancos da terra e moa todas as sementes que ela no bojo tem. Eleva 
o olhar. Agora, pai, deserda-me, se o queres, que herdeiro passo a ser de meu afeto.
     CAMILO - Atendei a conselhos.
     FLORIZEL - Sim, do prprio corao. Se a razo a obedecer-lhe se resolver, razovel vou mostrar-me. Do contrrio, os sentidos  loucura se inclinaro, dando-lhe 
as boas-vindas.
     CAMILO - Isso revela desespero, prncipe.
     FLORIZEL - Podeis chamar-lhe assim; mas se  verdade que me reforam juras, dou-lhe o nome de honestidade. Nem por toda a Bomia, Camilo, nem as honras que 
eu pudesse receber, nem por tudo que o sol veja, ou que a terra contenha; nem por quanto possa o mar esconder nas profundezas de braas insondveis, hei de as juras 
quebrar que fiz  minha linda amada. Por tudo isso vos peo, j que sempre fostes amigo certo de meu pai, quando ele vier a dar por minha falta - pois no pretendo 
nunca mais rev-lo - a clera acalmai-lhe com conselhos adequados, pois doravante vamos lutar: eu e a fortuna. Assim vos digo, e podereis contar-lhe, que me empego 
com quem no posso proteger na praia. E, por felicidade, de um navio disponho aqui, bem perto, que eu no tinha para isso aparelhado. O itinerrio no precisais 
saber; no me compete, portanto, revel-lo.
     CAMILO -  caro prncipe! Desejara que o esprito tivsseis mais acessvel a um conselho honesto ou mais forte na prpria adversidade.
     FLORIZEL - Ouve, Perdita. (A Camilo.) Logo vos atendo.
     CAMILO - Mostra-se inabalvel;  certeza partir. Feliz eu fora se pudesse utilizar sua sada, para servir aos meus intentos, preserv-lo dos perigos da ausncia, 
demonstrar-lhe todo o respeito e amor, sendo esse o preo de voltar a rever minha Siclia, bem como aquele infeliz rei, meu amo, como tanto desejo!
     FLORIZEL - Bom Camilo, tanto agora me apremam coisas graves, que vou deixar de lado a cerimnia.
     CAMILO - Quero supor, senhor, que j tivestes conhecimento de como eu dedico todo o meu pobre prstimo ao servio, to-s, de vosso pai.
     FLORIZEL - Sim, com nobreza sempre o servistes. A meu pai  msica elogiar vossos feitos, no lhe dando pouca preocupao o pensamento de premi-los  altura.
     CAMILO - Bem, meu prncipe; se estais certo do amor que ao rei eu voto, e, por seu intermdio, a quem mais perto dele se encontra - vossa prpria Alteza graciosa 
- consenti que eu vos dirija, caso vosso projeto bem pensado possa ser alterado. Por minha honra, um lugar vos indico em que acolhida Vossa Alteza achar em tudo 
digna, onde vos lograreis de vossa amada, de quem, agora o vejo, nada pode vos separar, seno to-s - que os fados no o permitam! - vossa prpria runa, e onde 
a desposareis. Em vossa ausncia tudo farei para acalmar a clera do descontente pai e por deix-lo disposto como dantes.
     FLORIZEL - De que modo, Camilo, poder ser isso feito - quase um milagre! - para que eu te chame mais do que humano e em tudo em ti confie?
     CAMILO - J decidistes o lugar em que heis de procurar acolhida?
     FLORIZEL - No, ainda; mas como foram fatos positivos a causa de partirmos to de sbito, escravos confessamo-nos do acaso, que os ventos tocam para qualquer 
parte.
     CAMILO - Ento ouvi-me e nisto obedecei-me. Se persistis no intento e quereis mesmo levar a termo a fuga, dirigi-vos para a Siclia, e l apresentai-vos com 
vossa esposa - pois princesa, vejo-o bem, ser logo - ao Rei Leontes. Recebida ser conforme o ttulo de vossa prpria esposa. S parece que estou vendo: Leontes 
abre os braos a chorar e vos d as boas-vindas, pedindo-vos perdo, como se fosseis vosso pai em pessoa, as mos oscula da nova princesinha e uma e mais vezes volta 
a tratar dos sentimentos prprios - a ingratido e o amor - enviando aquela para o inferno e almejando que este cresa mais depressa que o tempo ou o pensamento.
     FLORIZEL - Mas meu digno Camilo, que pretexto darei para a visita?
     CAMILO - Sois enviado, direis, de vosso pai, para saud-lo e levar-lhe conforto. Toda vossa conduta, as coisas que deveis dizer-lhe como se vosso pai por vs 
falasse - e que s ns sabemos - por escrito, prncipe vos direi, com minuciosas indicaes do que ser preciso dizer em cada audincia. Desse modo, no poder deixar 
de ficar crente de que representais o pensamento de vosso pai e que falais por ele de todo o corao.
     FLORIZEL - A vs me entrego; o plano  promissor.
     CAMILO - Muito mais vivel de que vos atirardes sem destino a guas nunca sulcadas ou a paragens com que nunca sonhastes, na certeza de misrias sem nmero, 
s tendo para cairdes noutra. No padece dvida que o melhor que vossas ncoras vos fariam, seria fundear sempre onde ficar no vos agrade nunca. Ademais,  a ventura, 
sabeis disso, o lao mais potente para o amor, cuja estrutura grcil e, por ela, tambm o corao, com a adversidade por demais se ressente.
     PERDITA - Uma de vossas proposies  certa: a adversidade pode influir nas feies, mas nunca pode vencer o corao.
     CAMILO -  desse modo que pensais? Outra filha assim, na casa de vosso pai no h de vir ao mundo nestes sete anos. Meu bondoso amigo, to  frente ela vai 
da instruo prpria, quanto a retarda o bero.
     CAMILO - Quem dissesse que lhe falta instruo, cometeria erro palmar, pois mestra ela parece de muitos professores.
     PERDITA - Oh! Perdoai-me, senhor, mas coro s de agradecer-vos.
     FLORIZEL - Minha linda Perdita! Mas estamos pisando sobre espinhos. Bom Camilo, salvador de meu pai e agora nosso, mdico de ns todos: que faremos? No estamos 
vestidos como filhos do Rei da Bomia, para aparecermos na corte da Siclia.
     CAMILO - No seja isso, senhor, razo de vos deixar inquieto. Como o sabeis,  l que tenho toda minha fortuna. Todo meu cuidado consistir, portanto, em aprestar-vos 
com pompa real, tal como se realmente representsseis uma cena minha. Por exemplo, senhor. Ouvi-me, para vos convencerdes de que tendes tudo.
     (Conversam  parte.)
     (Entra Autlico.)
     AUTLICO - Ah! Ah! Que louca  a Honestidade! E como  simplria a Confiana, sua irm de juramento! Vendi todas as minhas bugigangas: pedras falsas, fitas, 
espelhos, vidrinhos de perfume, broches, caderninhos de notas, baladas, facas, luvas, cordo de sapatos, braceletes, brincos, nada me ficou! Era mais quem empurrava 
os outros, querendo todos ser os primeiros a comprar, como se as minhas frioleiras fossem santificadas e valessem como bnos para os compradores. Desse modo, pude 
ver quais eram as bolsas de melhor aparncia, o de que no me esquecerei na ocasio oportuna. Meu Bobo - muito pouca coisa lhe falta para que ele seja um homem sensato 
- de tal modo ficou tomado de paixo pelas baladas das raparigas, que no arredou p enquanto no aprendeu a toada e as letras, o que atraiu para o meu lado o resto 
do rebanho, cujos sentidos se concentraram nos ouvidos. Podereis desapertar as vestes de qualquer pessoa e retirar-lhe dos bolsos uma moeda, que ningum sentia 
nada. Poderia ter roubado chaves pendentes de correntes; ningum percebia coisa alguma, no ouvia outra coisa a no ser a cano de meu homem, boquiabertos diante 
de sua absoluta desvalia. Desse modo, aproveitando-me do letargo universal, cortei o cordo da maior parte das bolsas festivas e apropriei-me delas. E se no fosse 
ter aparecido o velho, a fazer um barulho por causa de sua filha e do filho do rei, espantando-me do restolho os corvos, no teria deixado com vida uma s bolsa 
em todo o exrcito.
     (Camilo, Florizel e Perdita vm para a frente.)
     CAMILO - Chegando minhas cartas, pelos meios de que j vos falei, ao mesmo tempo que vs, desmancharo qualquer suspeita.
     FLORIZEL - E as cartas que obtiverdes do Rei Leontes...
     CAMILO - Deixaro satisfeito vosso pai.
     PERDITA - Sede feliz; quanto dizeis inculca boa aparncia.
     CAMILO (percebendo Autlico) - Quem  esse tipo? Como instrumento, poder servir-nos. No convm omitir coisa nenhuma.
     AUTLICO ( parte) - Se eles ouviram o que eu disse, o fim  a forca.
     CAMILO - Ento, amigo? Por que tremes desse jeito? No tenhas medo, homem; ningum pensa em te fazer mal.
     AUTLICO - Eu sou um pobre camarada, senhor.
     CAMILO - Pois ento, continua a s-lo, que nenhum de ns tenciona privar-te dessa vantagem. Contudo, podemos fazer uma barganha com a aparncia de tua pobreza. 
Por isso, despe-te imediatamente - basta saberes que h grande urgncia - e troca de roupa com este gentil-homem. Embora s ele tenha a perder com a troca, fica 
com mais isto, de crescena.
     AUTLICO - Sou um pobre camarada, senhor. ( parte.) Conheo-vos perfeitamente.
     CAMILO - Vamos! Por obsquio, despacha-te! O cavalheiro j est meio despido.
     AUTLICO - Estais falando srio, senhor? ( parte.) Estou farejando uma cilada em tudo isso.
     FLORIZEL - Vamos logo, por obsquio.
     AUTLICO -  certo que j recebi o penhor; mas, em conscincia, no posso aceit-lo.
     CAMILO - Desabotoa! Desabotoa logo! (Florizel e Autlico trocam as vestes respectivas.) Feliz senhora - que se concretize quanto ora profetizo! - retirai-vos 
para um lugar discreto; na cabea ponde o chapu de vosso apaixonado, puxando-o para os olhos; cobri o rosto, trocai de roupa, transformai-vos quanto vos for possvel, 
alterando vossa aparncia verdadeira, para que possais - pois receio que vos vejam - chegar a bordo sem que vos conheam.
     PERDITA - Vejo que tenho o meu papel na pea.
     CAMILO - No h remdio. Pronto?
     FLORIZEL - Poderia conversar com meu pai, sem que ele o nome de filho seu me desse.
     CAMILO -  necessrio ficardes sem chapu. Vinde, senhora. Adeus, adeus, amigo.
     AUTLICO - Meus, senhor.
     FLORIZEL -  Perdita! Esquecemos uma coisa! Vem! Uma palavrinha!
     (Falam  parte.)
     CAMILO ( parte) - Consiste agora todo o meu cuidado em revelar ao rei a fuga deles e o lugar do refgio, tendo quase certeza de chegar a convenc-lo de seguir-lhes 
no encalo. Assim, eu junto, vejo outra vez Siclia, o que desejo fazer com impacincia feminina.
     FLORIZEL - Que a sorte nos ajude. E assim, Camilo, vamos ganhar a praia.
     CAMILO - Toda a pressa nunca ser demais.
     (Saem Florizel, Perdita e Camilo.)
     AUTLICO - Entendo do negcio; farejo-o de longe. Ouvido aberto, mirada rpida e mos leves so indispensveis a todo batedor de carteira. Um bom nariz tambm 
faz parte dos requisitos, para farejar trabalho para os demais sentidos. Percebo que estamos em uma poca em que os desonestos prosperam. Que barganha magnfica 
j no seria a que eu fiz, ainda que no me tocasse nenhum lucro de crescena! E que lucro enorme com a troca! No h dvida: este ano os deuses esto coniventes 
conosco, sendo-nos permitido tudo fazer ex tempore. O prprio prncipe est no ponto de realizar alguma patifaria, fugindo do domiclio paterno com as peias nos 
ps. Se eu estivesse certo de que era ato de honestidade comunicar ao rei o que se passa, no lhe diria nada. Considero maior velhacaria guardar sigilo sobre o caso, 
com o que me mantenho coerente com a minha profisso. Afastemo-nos! Eis que vm chegando mais ocupaes para um crebro quente. Todo beco, toda loja, igreja, sesso, 
todo enforcamento d trabalho a quem quer que cuide de seus interesses.
     (Voltam o bobo e o pastor.)
     BOBO - Vede que homem sois agora. No h outra sada, seno revelardes ao rei que ela  uma criana encontrada, sem nenhuma relao com vossa carne e com vosso 
sangue.
     PASTOR - No; escuta-me.
     BOBO - No; escutai-me.
     PASTOR - Ento, prossegue.
     BOBO - Uma vez que ela no  nem vossa carne nem vosso sangue, vossa carne e vosso sangue no ofenderam o rei; assim sendo, nem vossa carne nem vosso sangue 
se tornaram passveis de punio. Mostrai-lhe os objetos que encontrastes juntamente com ela, todos eles misteriosos, com exceo dos que ela traz consigo. Uma vez 
feito isso, deixai que a lei assobie,  o que vos digo.
     PASTOR - Contarei tudo ao rei, palavra por palavra, sim, sem omitir a partida que lhe pregou o prprio filho, que no procede como homem de bem, posso afirm-lo, 
nem com relao ao pai, nem com relao a mim, ao querer fazer-me cunhado do rei.
     BOBO - De fato, cunhado era o menos que podereis ser dele, depois do que ficareis com o sangue mais caro no sei quanto a ona.
     AUTLICO ( parte) - Muito bem pensado, meus basbaques.
     PASTOR - Vamos ento procurar o rei. Levamos-lhe neste embrulho alguma coisa que o far coar a barba.
     AUTLICO ( parte) - No compreendo em que essa revelao poder prejudicar a fuga do meu senhor.
     BOBO - Tomara que ele esteja em palcio.
     AUTLICO ( parte) - Embora eu no seja naturalmente honesto, s vezes o sou por acaso. Ponhamos no bolso esta excrescncia de mascate. (Arranca a barba postia.) 
Ento, rsticos, para onde vos atirais?
     PASTOR - Vamos a palcio, com permisso de Vossa Senhoria.
     AUTLICO - Que negcio tendes l? Quais? Com quem? Que contm esse embrulho? Onde morais? Como vos chamais? Quantos anos tendes? Vossos recursos? Famlia? Em 
suma: revelai-me tudo que for conveniente saber.
     BOBO - Somos gente simples, senhor.
     AUTLICO - Mentira! Sois speros e peludos; no me venhais com mentiras. Mentir s  prprio de comerciantes, que por vezes nos impingem petas, a ns outros, 
soldados. Mas ns lhes pagamos com moeda batida, no com ferro que bate; por isso eles no nos mentem.
     BOBO - Vossa Senhoria esteve no ponto de nos apanhar numa mentira, se ns no tivssemos sido surpreendidos na hora.
     PASTOR - Sois da corte, senhor, se no vos desagrada?
     AUTLICO - Agrade-me ou no me agrade, sou corteso. No percebes o ar da corte nesta indumentria? No ando no compasso da corte? Teu nariz no percebe em 
minha pessoa o odor da corte? No fao reflexos em tua baixeza com o meu desprezo de corteso? Sou corteso da cabea aos ps, algum que poder fazer avanar ou 
retardar teus interesses na corte. Por isso, ordeno-te que me reveles o que te leva l.
     PASTOR - Certo negcio, senhor, com o rei
.
     AUTLICO - E com que advogado contas para isso?
     PASTOR - No sei, senhor, com permisso de Vossa Senhoria.
     BOBO - Advogado, na linguagem da corte, quer dizer faiso. Dizei-lhe que no tendes nenhum.
     PASTOR - Realmente, senhor; no tenho nenhum faiso; nem macho nem fmea
     AUTLICO - Como somos felizes por no sermos gente desse quilate! A natureza, contudo, poderia ter-me feito como eles so. No devo desprez-los.
     BOBO - Deve ser um grande corteso.
     PASTOR - As vestes so ricas, mas ele no as usa com elegncia.
     BOBO - Quanto mais original, mais nobre parece. Um grande homem, posso afianar-vos; conheo pela maneira de palitar os dentes.
     AUTLICO - E aquele embrulho? Que contm? Para que  essa caixa?
     PASTOR - Neste embrulho, senhor, e nesta caixa h segredos que s podem ser revelados ao rei, o que se dar dentro de uma hora, se eu conseguir falar-lhe.
     AUTLICO - Pois perdeste o trabalho, meu velho.
     PASTOR - Por qu, senhor?
     AUTLICO - O rei no se acha no palcio; foi para bordo de um novo navio, a fim de purgar sua melancolia e tomar ar. Se fores capaz de compreender assuntos 
srios, deves saber que o rei est cheio de preocupaes.
     PASTOR -  o que dizem, senhor, por causa de seu filho, que queria casar com a filha de um pastor.
     AUTLICO - Se esse pastor ainda no est na grade, que trate de fugir. As maldies que vo cair em cima dele, as torturas que ter de suportar, quebrariam 
o dorso a qualquer homem e o corao de um monstro.
     BOBO - Pensais assim, meu senhor?
     AUTLICO - No  ele somente que h de sofrer o que a maldade possa inventar de pesado e a vingana de amargoso; todos os seus parentes, at o qinquagsimo 
grau, sero tambm entregues ao carrasco.  pena, mas  inevitvel. Um velho assobiador de ovelhas, um guardador de carneiros, que queria que sua filha se tornasse 
fidalga! H quem diga que vai ser apedrejado; mas eu penso que essa morte, para ele, seria pouco branda. Puxar nosso trono para uma cabana de pastor! Todas as mortes 
so poucas, e a mais cruel ainda ser muito branda.
     BOBO - J ouvistes dizer, senhor, se no vos desagrada, que esse velho tenha algum filho?
     AUTLICO - Tem um filho, que vai ser esfolado vivo, depois besuntado de mel e posto ao lado de um vespeiro, onde o deixaro at ficar morto trs quartas e uma 
dracma. A seguir, f-lo-o reanimar com aquavitae ou qualquer outra infuso quente. Depois, escalavrado como estiver, no dia mais quente previsto pelo almanaque, 
ser colocado contra um muro de tijolos, onde o sol olhar para ele com o seu olho sul e o ficar contemplando at que as moscas o liquidem. Mas, por que falarmos 
desses velhacos e traidores, cujas misrias s nos provocam riso, to graves foram seus crimes? Dizei-me - pois pareceis gente honesta e simples - que  que levais 
para o rei. Gozando de certa considerao, poderei guiar-vos at a bordo do navio em que ele se acha, levar-vos  sua presena e segredar-lhe algumas palavrinhas 
a vosso favor. Se h algum - tirante o rei - que poder dar boa concluso a vossas pretenses, aqui est essa pessoa.
     BOBO - Parece gozar de grande autoridade. Instai com ele; dai-lhe ouro; porque embora a autoridade seja um urso teimoso, muitas vezes,  vista de ouro, deixa-se 
conduzir pelo nariz. Mostrai o interior de vossa bolsa ao exterior da mo dele, e nem mais uma palavra. No vos esqueais: "Apedrejado" e "esfolado vivo!"
     PASTOR - Se quereis ter a bondade, senhor, de patrocinar nosso negcio, aqui tendes o ouro de que disponho. Poderei arranjar outro tanto, deixando este jovem 
como penhor, at que vos traga a outra poro.
     AUTLICO - Depois de eu ter feito o que prometi?
     PASTOR - Perfeitamente, senhor.
     AUTLICO - Muito bem. Ento, entrega-me essa metade. E tu, tambm ests interessado nesse negcio?
     BOBO - De certo modo, senhor; mas embora minha pele no seja l das melhores, espero que no me faam sair dela contra minha vontade.
     AUTLICO - Oh! Isso s acontecer com o filho do pastor.  forca com ele, para que sirva de exemplo.
     BOBO - Coragem! Coragem! Teremos de procurar o rei e mostrar-lhe esses objetos estranhos.  preciso que ele fique sabendo que ela no  vossa filha nem minha 
irm. Do contrrio, estaremos perdidos. Senhor, uma vez concludo o negcio, dar-vos-ei tanto quanto vos deu este velho, ficando, como ele disse, na qualidade de 
penhor, at que ele traga o resto da importncia.
     AUTLICO - Tenho confiana em vs. Ide na frente, em direo do mar. Vou s ver o que se passa do outro lado da sebe, e j vos alcanarei.
     BOBO - Para ns este homem foi uma bno, pode-se dizer; verdadeira bno.
     PASTOR - Vamos na frente, conforme ele ordenou que o fizssemos. Foi a Providncia que no-lo enviou.
     (Saem o pastor e o bobo.)
     AUTLICO - Estou vendo que se eu quisesse ser honesto, a Fortuna no o consentiria; ela prpria faz que as presas me venham cair na boca. Sou cortejado agora 
por uma dupla vantagem: obter ouro e prestar um bom servio ao prncipe meu senhor. Quem sabe at que ponto isso poder redundar em seu proveito? Vou levar-lhe a 
bordo essas duas toupeiras, esses dois cegos. Se ele achar proveito em recambi-los para terra, por julgar que no lhe diz respeito a petio que eles tencionam 
apresentar ao rei, que me d o nome de maroto, por me ter mostrado to servial; j estou  prova de fogo com tudo o que diz respeito a semelhante ttulo e ao oprbrio 
inerente a ele. Vou apresent-los ao prncipe; pode ser que isso me renda alguma coisa. (Sai.)

      
ATO V
Cena I
      
Siclia. Um quarto no palcio de Leontes. Entram Leontes, Clemenes, Dion, Paulina e outros.
      
     CLEMENES - Senhor, fizestes muito; o sofrimento que revelais  prprio s de mrtires. Quantos erros houvsseis praticado, j se acham redimidos, que ultrapassa 
de muito a penitncia vossas altas. Como remate, o cu imitai nisso, esquecendo vosso erro, e, tal como ele, a vs mesmo perdoando.
     LEONTES - Em todo o tempo que dela eu me lembrar e de seus dotes, impossvel ser-me- lanar no olvido quanto fui mau em relao a ela, quanto comigo injusto, 
indo at ao ponto de deixar sem herdeiro o prprio trono e de matar a mais distinta esposa com que sonhar pudesse qualquer homem.
     PAULINA -  certo, meu senhor;  muito certo. Se despossseis todas as mulheres do mundo, uma por uma, ou se de quantas agora existem retirsseis tudo que de 
mais alto as orna, para a esposa perfeita conseguirdes, impossvel vos fora, ainda, p-la em paralelo com aquela que matastes.
     LEONTES -  o que eu penso, tambm. A que eu matei... Sim, dei-lhe a morte; foi o que fiz. Porm me feres fundo, falando desse modo. To amarga te sabe  lngua 
essa lembrana, como  minha retentiva. Assim me fala, boa amiga, mas muito mais de espao.
     CLEMENES - No, jamais, boa dama. Podereis ter falado mii coisas que mais teis fossem neste momento e mais de acordo com a bondade que tanto ws distingue.
     PAULINA - Sois um daqueles que desejam v-lo novamente casado.
     DION - Se no fordes desses tambm,  que no tendes pena das condies do Estado, nem das glrias vos importais de seu ilustre nome, no vos incomodando os 
grandes riscos que o reino ameaar podem, se Sua Graa continuar desse modo sem herdeiros, a morrer vindo os que se mostrem dbios. Que fora mais piedoso do que 
jbilo revelar pela bem-aventurana de que se goza a falecida rainha? Que mais piedoso, ainda, porque o trono mais firme se tornasse, para nosso consolo e bem das 
geraes futuras, do que de novo abenoar o leito de Sua Alteza com uma grata esposa?
     PAULINA - Nenhuma  digna disso, se pensarmos naquela que morreu. Demais, os deuses ho de querer que em tudo se confirmem seus desgnios ocultos. No  certo 
ter-se manifestado o divo Apolo, e dito expressamente o seu orculo que sem herdeiro ficaria Leontes, enquanto no aparecesse a filha que ora perdida est? Mas to 
obstrusa para nossa razo ser tal coisa, como quebrar a tumba o meu Antgono e voltar para mim, pois que  certeza - por minha vida o juro - ter morrido juntamente 
com ela. Ora, assim sendo, desejais que meu amo ao cu se oponha, que despreze seus planos? (A Leontes.) No vos seja motivo de cuidado a descendncia. A coroa h 
de achar seu prprio herdeiro. O famoso Alexandre deixou a sua para o mais digno, tendo, assim, o trono passado para um sucessor condigno.
     LEONTES - Boa Paulina, sei que ainda cultuas a memria de Hermone. Oh! tivesse seguido teus conselhos! Ainda hoje contemplaria minha cara esposa e um tesouro 
colhera de seus lbios.
     PAULINA - Deixando-os mais valiosos depois disso.
     LEONTES - S falas a verdade. Igual esposa j no se encontra. Logo, no me falem mais em casar. Uma pior consorte, que de mim recebesse mais afagos, obrigaria 
seu sagrado esprito a voltar para o corpo e vir ao. palco em que eu - seu assassino - ainda me encontro, para, com desespero, perguntar-me: "Por que me fazeis isso?"
     PAULINA - Se tivesse poder para isso, causa lhe sobrara.
     LEONTES - No lhe faltara, certo; e me induzira a matar a mulher que eu desposasse.
     PAULINA - Se espectro errante eu fosse,  o que faria. Mandar-vos-ia contemplar-lhe os olhos, e depois perguntara: "Esse olhar morto foi que vos atraiu?" Depois, 
soltara to forte guincho, que vos deixaria de ouas arrebentadas, despedindo-se com vos dizer: "Recorda-te de mim!"
     LEONTES - Estrelas cintilantes, verdadeiras estrelas, no passando os outros olhos de carves apagados. No receies outra mulher, Paulina; jamais hei de casar 
de novo.
     PAULINA - No quereis jurar-me que no vos casareis, sem que para isso vos d consentimento?
     LEONTES - Quero, boa Paulina; juro-o pela vida eterna.
     PAULINA - Tomai nota, senhores, desta jura.
     CLEMENES - A excessivo tormento o submeteis.
     PAULINA - A menos que lhe surja aos olhos outra que se parea tanto com Hermone como sua prpria imagem.
     CLEMENES - Boa dama...
     PAULINA - Cheguei ao fim. Se o meu senhor, de fato, quer casar outra vez - se decidistes, senhor, sobre esse ponto - reservai-me a incumbncia de esposa procurar-vos. 
No h de ser to jovem quanto Hermone, mas de tal aparncia, que se o esprito da morta retornasse, se alegrara de v-la em vossos braos.
     LEONTES - Minha boa Paulina, no nos casaremos antes de nos dares licena.
     PAULINA - Ser isso quando voltar  vida vossa esposa. Antes, jamais.
     (Entra um gentil-homem.)
     GENTIL-HOMEM - Algum que se apresenta como o Prncipe Florizel, descendente de Polxenes, com sua esposa - a mais formosa jovem que eu jamais vi - deseja ser 
trazido diante de Vossa Alteza.
     LEONTES - Que acontece?. No chega como fora de esperar-se da grandeza do pai. Essa visita to despida de toda cerimnia, to sbita, nos diz que no se trata 
de uma visita regular, mas de algo forado ou acidental. Qual  o seu squito?
     GENTIL-HOMEM - Poucas pessoas; todas, gente simples.
     LEONTES - Vem com ele, dissestes, a princesa?
     GENTIL-HOMEM - A mais linda poro de argila, creio, que o sol em qualquer tempo haja alumiado.
     PAULINA -  Hermone! Como em todos os tempos o presente se vangloria  custa do passado, teus encantos agora o lugar cedem diante dos mais recentes. Cavalheiro, 
vs mesmo j dissestes e escrevestes - mas vosso escrito, agora, est mais frio do que seu prprio tema - que ela nunca fora igualada e no o seria nunca. Desse 
modo, com sua formosura, deflua vosso verso; mas vazante muito grande se deu, para dizerdes que algum vistes mais bela do que Hermone.
     GENTIL-HOMEM - Perdo, senhora; uma, porm, eu tinha - com vossa permisso - quase esquecido. Mas esta agora, quando for notada por vossos olhos, obter, sem 
dvida, irrestritos encmios.  criatura que se fundar quisesse alguma seita, faria arrefecer aos prprios chefes das outras o entusiasmo, convertendo para a sua 
a quem quer que ela acenasse.
     PAULINA - Inclusive mulheres?
     GENTIL-HOMEM - As mulheres ho de dedicar-lhe amor, por estar ela muito acima dos homens, e estes todos, por ser ela a mais rara das mulheres.
     LEONTES - Ide, Clemenes. E vs, com vossos mais distintos amigos, conduzi-os para que os abracemos. (Saem Clemenes, nobres e o gentil-homem.) Mas  estranho 
que venha por maneira to furtiva!
     PAULINA - Se estivesse com vida o nosso prncipe - a prola das crianas - formaria com este nobre um par digno de ver-se, pois entre a idade de ambos no havia 
um ms de diferena.
     LEONTES - Por obsquio,no prossigas. Bem sabes que ele morre para mim novamente, quando nele qualquer pessoa fala. No momento em que eu vir esse
     NOBRE - estou bem certo - tuas palavras ho de sugerir-me pensamentos que louco vo deixar-me. Mas eis os visitantes. (Volta Clemenes com Florizel, Perdita 
e outros.) Caro Prncipe, vossa me foi fiel ao matrimnio, porque reproduziu, ao conceber-vos, a imagem fiel de vosso nobre pai. Se vinte e um anos eu tivesse agora 
- de tal maneira os traos fisionmicos de vosso pai em vs se reproduzem, toda sua postura - vos daria o ttulo de irmo, como com ele costumava fazer naquele tempo, 
e de alguma loucura vos falara que praticado houvssemos pouco antes. De corao vos dou as boas-vindas e a vossa bela esposa - vera deusa! - Oh cus! Perdi dois 
filhos, um casal, que se entre o cu e a terra ainda estivessem, espanto despertaram como agora, par gracioso, o fazeis. Por culpa prpria, perdi a companhia e o 
grande afeto de vosso nobre pai. Pelo infortnio dobrado como estou, desejaria viver ainda s para rev-lo.
     FLORIZEL - Por ordem dele vim at  Siclia e de sua parte trago-vos saudares como um amigo e rei a um mano envia. E se a fraqueza prpria da velhice do consueto 
vigor no o tivesse, de algum modo, privado, ele, em pessoa, medido ento teria a terra e os mares que entre o seu trono e o vosso se interpem, com o fito de vos 
ver, a vs, a que ele - mandou que vos dissesse - amor dedica maior que aos tronos todos e aos monarcas que, vivos, nele se acham.
     LEONTES - Que bondoso gentil-homem! Que irmo! Todos os males que te causei, de novo me compungem e essa tua mensagem to tocante me exprobra a negligncia. 
Sois bem-vindo como o  a primavera sobre a terra. Como! Exps ele esta criatura linda ao jogo perigoso, ou, quando nada, pouco agradvel do feroz Netuno, s para 
vir saudar quem no  digno dessas canseiras nem de que se arrisque to preciosa pessoa?
     FLORIZEL - Meu bondoso soberano, da Lbia ela procede.
     LEONTES - Onde o valente Esmalo, esse guerreiro nobre e honrado,  temido e venerado?
     FLORIZEL - De l, real senhor, da parte dele, cujas lgrimas, quando nos partimos, a proclamavam filha muito amada. De l, precisamente, um vento prspero do 
sul nos trouxe, para cumprimento darmos s ordens de meu pai, de a Vossa Grandeza visitarmos. Quase todo meu squito, ao tocarmos na Siclia, foi por mim dispensado, 
no somente porque levada  Bomia fosse a nova do meu bom xito na Lbia, como por dar notcias que eu com minha esposa chegamos bem onde ora nos achamos.
     LEONTES - Que os deuses caridosos purifiquem de qualquer infeco nossa atmosfera todo o tempo que aqui permanecerdes. Tendes um pai piedoso, um gentil-homem 
de nobreza sem jaa, contra cuja santa pessoa eu cometi pecado. Como castigo disso, o cu colrico me deixou sem herdeiro, enquanto vosso bendito pai - merecedor 
de tudo com que o cu o abenoe - feliz se encontra convosco, digno dele. Oh! A que altura no teria eu chegado, se pudesse ver uma filha e um filho to perfeitos 
com o par que ora vejo!
     (Entra um nobre.)
     NOBRE - Muito nobre senhor, no merecera nenhum crdito quanto vos vou dizer, se no tivssemos as provas aqui perto. Grande prncipe, Bomia pessoalmente vos 
sada, valendo-se do meu modesto prstimo. A deter vos concita o filho dele que, esquecido do cargo e dos deveres, fugiu do pai, das prprias esperanas, com a filha 
de um pastor.
     LEONTES - Onde est Bomia?
     NOBRE - Nesta cidade; acabo de falar-lhe. Sei que falo sem nexo, mas de acordo com meu espanto e esta mensagem rara. Ao vir depressa para vossa corte, seguindo 
o rasto, pelo que suponho, deste belo casal, deu em caminho com o pai desta princesa improvisada e o irmo dela, que a ptria abandonaram em companhia deste jovem 
prncipe.
     FLORIZEL - Camilo me traiu, ele que  prova do tempo a honestidade e a honra pusera.
     NOBRE - Podeis fazer-lhe carg disso mesmo, pois com o rei vosso pai ele se encontra.
     LEONTES - Quem! Camilo?
     NOBRE - Camilo, sim, milorde: falei-lhe agora mesmo. Interrogados por ele os dois coitados esto sendo. Nunca vi infelizes tremer tanto; ajoelham-se a toda 
hora, a terra beijam, outra coisa no dizem seno juras. O Rei da Bomia as mos leva aos ouvidos e os ameaa de morte com suplcios.
     PERDITA - Meu pobre pai! O cu mandou espias sobre ns; no consente que levemos ao fim nosso esposrio.
     LEONTES - Sois casados?
     FLORIZEL - No, senhor; nem jamais nos casaremos. Ser mais fcil, pelo que parece, virem beijar os vales as estrelas. Quem poder ganhar com dados falsos?
     LEONTES - E ela, senhor,  filha de um monarca?
     FLORIZEL - Ser, quando tornar-se minha esposa.
     LEONTES - Quero crer que esse "quando", com a chegada de vosso pai, vem muito lentamente. Causa-me pena, muita pena mesmo, ver que os laos rompestes da amizade 
a que o dever vos conservava preso, como verificar que vossa escolha no seja, em posio, to opulenta como o  em formosura, porque fosse natural que a possusseis.
     FLORIZEL - Ala a vista, minha querida. Ainda que a Fortuna, nossa inimiga declarada, ao lado de meu pai nos d caa, fora alguma tem de modificar, de um fio 
apenas, nosso sincero amor. Senhor, suplico-vos lembrardes-vos do tempo em que deveis tanto  idade quanto eu. Com os sentimentos de ento sede advogado em minha 
causa. Meu pai, se lhe falardes, no vos h de negar nenhum pedido, dando como ninharias as coisas mais valiosas.
     LEONTES - Se isso fosse verdade, eu lhe pedira vossa amada preciosa, que ele julga no valer coisa alguma.
     PAULINA - Meu senhor, nos olhos tendes muita mocidade; um ms antes da morte da rainha, muito mais digna desse olhar era ela do que a pessoa que ora estais 
olhando.
     LEONTES - Olhando esta, era nela que eu pensava. (A Florizel.) No respondi a vossa petio. Vou ao encontro, j, de vosso pai. Desde que no tisnou mancha 
nenhuma dos desejos vossa honra, considero-me amigo vosso e deles. Vamos juntos e vede o que eu fizer. Vinde, meu caro.
     (Saem.)

      
Cena II
      
O mesmo. Diante do palcio. Entram Autlico e um gentil-homem.
      
     AUTLICO - Por obsquio, senhor, estivestes presente a essa histria?
     GENTIL-HOMEM - Estive presente, quando abriram o embrulho e ouvi como o velho pastor contou como o havia encontrado, ao que se seguiu uma fase rpida de espanto, 
tendo-nos sido dada ordem para que sassemos da sala. Parece que ouvi ainda o pastor dizer que havia achado a criana.
     AUTLICO - Desejaria muito saber o desenlace disso.
     GENTIL-HOMEM - Fiz uma exposio muito incompleta do que houve; mas as alteraes que eu percebi no rei e em Camilo eram indicadoras de extrema perplexidade. 
Pela maneira que se olhavam, dir-se-ia que os olhos iam saltar-lhes das rbitas; havia eloqncia no mutismo deles e linguagem em seus prprios gestos. Davam a impresso 
de estarem ouvindo falar de mundos resgatados ou destrudos. Revelavam sinais de grande estupefao; mas qualquer testemunha sagaz, que s formasse opinio pelo 
que visse, no saberia dizer se toda aquela emoo era fruto de alegria ou de tristeza, sendo certeza que s poderia tratar-se de um desses dois sentimentos, elevado 
ao mximo. (Entra outro gentil-homem.) A vem um gentil-homem que talvez nos possa informar de mais alguma coisa. Quais so as novidades, Rogero?
     SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Nenhuma, seno fogos de alegria. Cumpriu-se o orculo: a filha do rei foi encontrada. Tantas coisas espantosas se tornaram conhecidas 
nesta hora, que os fazedores de baladas no sero capazes de dar-lhes expresso adequada. (Entra um terceiro gentil-homem.) A vem o intendente da senhora Paulina. 
Ele vos contar mais algumas particularidades. Ento, senhor, em que ponto esto as coisas? As novidades que nos so dadas como puras verdades, parecem-se tanto 
com um velho conto, que a veracidade do fato se nos afigura muito suspeita.  certo que o rei encontrou a herdeira.
     TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Certssimo, se em qualquer tempo a verdade j foi demonstrada pelas circunstncias. Podereis jurar que vistes que tudo o que vos contam, 
tal  a coerncia das provas. O manto da Rainha Hermone, a jia que a criana trazia ao pescoo, as cartas de Antgono, cuja letra foi reconhecida, a majestade 
da senhorita, a semelhana com a me, a expresso de nobreza, muito acima de sua educao, e denotadora de origem mais elevada, e muitas outras evidncias proclamam, 
sem sombra de dvida, que ela  mesmo a filha do rei. Vistes o encontro dos dois monarcas?
     SEGUNDO GENTIL-HOMEM - No.
     TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Ento perdestes um espetculo que no pode ser contado; precisava ter sido visto. Tereis visto como as alegrias se coroavam sucessivamente, 
e de forma tal que s parecia que a tristeza chorava por despedir-se deles, de tal modo a alegria patinhava em lgrimas. Ambos no faziam seno olhar para o cu 
e levantar as mos, com to perturbados modos, que s eram reconhecveis pelas vestes, no pela fisionomia. Nosso rei, como se quisesse sair de si mesmo, de alegria 
por haver encontrado a filha, como se de sbito essa alegria se houvesse transformado em dor, gritava: "Oh, tua me! Tua me!" Depois, pedia perdo ao Rei da Bomia; 
depois abraava o genro; depois, corria a abraar aodadamente a filha. Agradece ao velho pastor, que se mantinha como uma figura de chafariz estragada pelo tempo 
durante muitas geraes de reis. Nunca ouvi falar de um encontro como esse; deixa manca qualquer relao que dela se queira fazer e desafia qualquer descrio.
     SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Dizei-me, ainda, por obsquio, que aconteceu com Antgono, que fora incumbido de expor a criana?
     TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Ainda no jeito dos velhos contos, em que h muito que dizer, muito embora cochile a credulidade e nenhum ouvido fique atento: foi estraalhado 
por um urso, conforme o afirma o filho do pastor, cuja palavra  reforada no somente por sua prpria ingenuidade - que parece grande, realmente - como tambm por 
um leno e os anis que Paulina reconheceu como tendo pertencido ao marido.
     PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - E que foi feito do navio dele e de seus tripulantes?
     TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Foi a pique no momento preciso em que morria o dono, e  vista do pastor, de forma que todos os instrumentos que haviam tomado parte 
no ato de ser exposta a criana se perderam no momento em que ela foi encontrada. Mas, oh! que nobre combate se travava em Paulina, entre a alegria e a tristeza! 
Um dos olhos se abaixava pela perda do marido, enquanto o outro se elevava por ter sido cumprido o orculo; levantava do solo a princesa e a abraava com tamanho 
ardor, como se a quisesse cravar no corao, para que no viesse a correr o risco de vir novamente a perder-se.
     PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - - A grandeza dessa cena merecia um auditrio de reis e de prncipes, por serem tais os seus atores.
     TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Um dos acidentes mais comovedores, que chegou a pescar nos meus olhos - s tendo apanhado gua, sem pegar peixe algum -  relao da 
morte da rainha e da causa que a provocou - admiravelmente confessada e lastimada pelo rei - foi a tenso dolorosa da filha, que, num crescendo de manifestao de 
sofrimento, por ltimo, com uma exclamao, poderia dizer, sangrou em lgrimas, pois estou certo de que o meu corao tambm chorava sangue. Dos assistentes, os 
mais de pedra mudaram de cor; alguns desmaiaram; todos se mostravam profundamente comovidos, e se o mundo inteiro houvesse presenciado a cena, a tristeza teria sido 
universal.
     PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - J voltaram para a corte?
     TERCEIRO GENTIL-HOMEM - No; que a princesa ouviu falar da esttua de sua me, que se acha sob a guarda de Paulina - trabalho que requereu anos e que foi recentemente 
concludo por Jlio Romano, o grande mestre italiano, que, se fosse imortal, insuflaria alento em sua criao e usurparia a prpria funo da natureza, tal  a perfeio 
com que a imita. Fez uma Hermone to semelhante a Hermone, que, segundo dizem, a gente fala com ela e fica  espera de resposta. Para l se dirigiram todos com 
a sofreguido da afeio, pretendendo cear l mesmo.
     GENTIL-HOMEM - Hermone, duas ou trs vezes por dia ela se dirigia sozinha para essa casa apartada. No quereis ir tambm l, para nos associarmos  alegria 
geral?
     PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Haver quem no queira ir, gozando do benefcio do acesso? A cada piscar de olhos pode nascer um novo motivo de alegria. Nossa ausncia 
nos deixaria privados de informaes. Sigamos.
     (Saem os gentis-homens.)
     AUTLICO - Agora, se no fosse a mcula de minha vida anterior, choveriam sobre mim as promoes. Fui eu que levei o velho e seu filho para bordo do navio do 
prncipe e lhe disse que os surpreendera a falar de certo embrulho e de no sei que mais. Mas nessa ocasio o prncipe se encontrava obcecado pela filha do Pastor 
- ainda a tinha nessa conta - que comeava a sofrer de enjo, no estando ele tampouco muito mais firme, porque a tempestade no parara. Da no ter sido descoberto 
nessa ocasio o segredo. Mas para mim, tanto faz. Se tivesse sido eu o descobridor do segredo, isso no anularia minhas velhacarias anteriores. A vm os dois, aos 
quais eu fiz bem sem o querer; encontram-se em pleno desabrochar da fortuna.
     (Entram o pastor e o bobo.)
     PASTOR - Vamos, menino; outros filhos no posso ter; mas teus filhos e tuas filhas ho de nascer fidalgos.
     BOBO - Belo encontro, senhor. H dias no vos quisestes bater comigo, por eu no ser gentil-homem de nascimento. Vedes esta roupa? Dizei que no a estais vendo 
e continuai a pensar que eu no sou gentil-homem de nascimento. Fareis melhor se disssseis que esta roupa no  de gentil-homem de nascimento. Experimentai desmentir-me, 
para verdes se eu sou ou no um gentil-homem de nascimento.
     AUTLICO - Agora sei, senhor, que sois, realmente, um gentil-homem de nascimento.
     BOBO - Sim, e sempre o fui, desde as ltimas quatro horas.
     PASTOR - Eu tambm, rapaz.
     BOBO - Sim, vs tambm; mas eu me tornei gentil-homem de nascimento antes de meu pai, porque o filho do rei me tomou pela mo e me chamou de irmo. Foi s depois 
que os dois reis deram o nome de irmo a meu pai e que o prncipe meu irmo e a princesa minha irm chamaram de pai a meu pai, tendo ns, ento, chorado as primeiras 
lgrimas de gentil-homem.
     PASTOR - Ainda poderemos viver, filho, para chorar muitas mais.
     BOBO -  certo; do contrrio, seria verdadeira infelicidade, dada a nossa posio to despropositada.
     AUTLICO - Humildemente vos suplico, senhor, que me perdoeis todas as faltas cometidas em relao a Vossa Senhoria, e que vos digneis dizer a meu favor uma 
palavrinha ao prncipe, meu amo.
     PASTOR - Peo-te, meu filho, que faas isso; precisamos mostrar-nos generosos, agora que somos gentis-homens.
     BOBO - Prometes que te corrigireis?
     AUTLICO - Sim, com a permisso de Vossa Senhoria.
     BOBO - D-me a mo; vou jurar ao prncipe que tu s um sujeito to honesto como quem quer que o seja na Bomia.
     PASTOR - Poders dizer isso, porm sem jurar.
     BOBO - No jurar, agora que sou gentil-homem? Camponeses e burgueses que se contentem em falar; eu, hei de jurar.
     PASTOR - E se for falso?
     BOBO - Por mais falso que seja, um gentil-homem poder afirmar em juramento, quando se trata de favorecer a um amigo. Vou jurar ao prncipe que tu s bom de 
mos e que no te embriagas, ainda que eu saiba que no s de mo muito boa e que te embriagas. Mas hei de jur-lo, desejando que sejas muito bom de mos.
     AUTLICO - Hei de esforar-me para s-lo, senhor, quanto em mim estiver.
     BOBO - Sim, prova-me isso por todas as maneiras. Se eu no me admirar de tu ousares embriagar-te sem seres bom de mos, nunca mais acredites em mim. Escutai! 
Os reis e os prncipes, nossos parentes, vo indo ver a esttua da rainha. Vamos; acompanha-nos; seremos bons para ti.
     (Saem.)

      
Cena III
      
O mesmo. Uma capela em casa de Paulina. Entram Leontes, Polxenes, Florizel, Perdita, Camilo, Paulina, nobres e squito.
      
     LEONTES - Quanto consolo, minha boa e digna Paulina, estou a dever-te!
     PAULINA - Se por vezes, meu soberano, errei, no foi por gosto. Todos os meus servios sempre foram compensados de sobra. Mas o fato, senhor, de no vos terdes 
dedignado, com vosso irmo coroado e os dois herdeiros, de visitar a minha pobre casa,  excesso de bondade que impossvel em toda a vida me ser pagar-vos.
     LEONTES - Oh Paulina! S incmodo vos damos com a honra que dizeis. Mas aqui viemos, para a esttua admirar de nossa esposa. Atravessamos vossas galerias no 
sem grande prazer, proporcionado pela vista de tantas raridades que nela se contm; mas ainda falta ver o que minha filha tanto almeja: a esttua da me dela.
     PAULINA - Assim como ela no teve em vida quem se lhe igualasse, do mesmo modo, creio, sua imagem inanimada excede tudo quanto pela mo do homem foi jamais 
criado. Eis a razo de a conservar  parte. Aqui est ela. Agora preparai-vos para ver como a vida simulada zomba da prpria vida, como nunca da morte o sono o fez. 
Ei-la! Mirai-a e dizei que  perfeita! (Paulina afasta uma cortina, deixando ver Hermone, em posio de esttua.) Esse silncio diz bem de vosso espanto; isso me 
agrada. Mas dizei qualquer coisa. Vs, primeiro, meu soberano; no  mais ou menos parecida?
     LEONTES - Tal qual como era em vida. No me censures, pedra idolatrada, se eu disser que s realmente a minha Hermone. No, sem me censurares  que s ela, 
que sempre foi to branda como a prpria infncia, como a graa. Mas, Paulina, Hermone no tinha tantas rugas; no tinha a idade que aparenta agora.
     POLXENES - Oh! muito menos!
     PAULINA - Tanto mais nos foram  admirao os mritos do artista, que a fez envelhecer dezesseis anos, plasmando-a como se hoje ela vivesse.
     LEONTES - Como podia estar ainda, tanto para minha alegria, quanto agora me punge o corao. Oh! Desse mesmo modo ela estava, com igual aprumo de nobre majestade 
- vida quente, que ora o calor perdeu - quando a primeira declarao lhe fiz. Oh! envergonho-me! A pedra no ir lanar-me em rosto que mais pedra do que ela ora 
eu pareo? O real obra-prima! H fora mgica em tua majestade, que me evoca neste momento todos os meus crimes e priva minha filha estarrecida da vida dos sentidos, 
transformando-a em pedra, como tu.
     PERDITA - Oh! Permiti-me, sem me tachardes de supersticiosa, que eu me ponha de joelho e bno pea. Senhora, soberana mui querida, que vos finastes quando 
eu vim ao mundo, dai-me a mo, porque a beije!
     PAULINA - Oh! mais pacincia! A esttua foi concluda h pouco tempo; as cores ainda no esto bem secas.
     CAMILO - Meu senhor, vossa dor tem sido grande todo esse tempo. Dezesseis invernos no a apagaram; dezesseis estios no puderam sec-la. Nunca vive tanto a 
alegria; em muito menos tempo qualquer outra tristeza se matara.
     POLXENES - Permiti, caro irmo, que quem foi causa de tudo isto, de seu poder se valha para de vs tirar parte da pena que a ele prprio acabrunha.
     PAULINA - Com franqueza, meu senhor, se eu tivesse imaginado que vos abalareis tanto  vista de minha pobre esttua - pois a pedra me pertencia - no vo-la 
mostrara.
     LEONTES - No corras a cortina.
     PAULINA -  conveniente no a verdes mais tempo; em vosso enlevo podereis pensar que ela se move.
     LEONTES - Deixa! Deixa! Quisera estar sem vida, se morto eu j no parecesse h muito. Quem foi o autor da esttua? Vede, prncipe, no tendes a impresso de 
que respira? de que estas veias contm mesmo sangue?
     POLXENES -  uma obra-prima; nesses lbios pulsa mais quente a prpria vida.
     LEONTES - A fixidez do olhar tem movimento. S parece que a arte zomba de ns.
     PAULINA - No; vou tap-la. To abalado meu senhor se encontra que h de acabar pensando que ela vive.
     LEONTES - Cara Paulina, deixa-me durante vinte anos na iluso de que  assim mesmo. Toda a razo do mundo vale menos do que a ventura de uma tal insnia.
     PAULINA - Causa-me pena, meu senhor, o ter-vos abalado a esse ponto. Poderia vos causar aflio mais acendrada.
     LEONTES - Faze-o, Paulina. Essa aflio me sabe mais docemente que qualquer cordial. Mas sempre quer-me parecer que dela vero alento se evola. Mas quando houve 
quem na pedra gravasse o prprio anlito? Podem zombar de mim, mas vou beij-la.
     PAULINA - Perdo, meu soberano, mas a tinta dos lbios ainda no secou de todo; com vosso beijo ireis retir-la, sobre sujar-vos de leo da pintura. Puxo a 
cortina?
     LEONTES - No, nestes vinte anos.
     PERDITA - Tanto tempo eu tambm ficara olhando-a.
     PAULINA - Agora decidi-vos; ou da sala vos retirai j j, ou preparai-vos para maior assombro. Se puderdes olhar a esttua ainda, farei que ela se mova, desa 
e pela mo vos tome. Mas ento heis de crer - o que protesto - que algum poder perverso me auxilia.
     LEONTES - Verei contente tudo o que mandares que ela faa, e ouvirei tambm de grado quanto ela me disser, pois  to fcil fazer que fale, como que se mexa.
     PAULINA -  preciso ter f. Silncio agora! Ningum se mexa, salvo se h quem pense que o que eu vou praticar  condenvel. Esse que se retire.
     LEONTES - Continua;ningum sair daqui.
     PAULINA - Desperta-a, msica! (Msica.) Cessai de ser de pedra!  tempo. Vinde! Tocai em todos que vos olham, cheios de admirao. Descei; deixarei cheio vosso 
sepulcro. Sim, aproximai-vos! Legai  morte esse torpor, que a vida j vos libertou dela. Vede-a; move-se. (Hermone desce do pedestal.) No vos mostreis estupefactos; 
todos seus atos so sagrados, como foram lcitos meus conjuros. Recebei-a; do contrrio, fareis que morresse, o que fora mat-la duas vezes. A mo lhe dai; j a 
corte lhe fizestes, quando reis moo. Mas agora, idoso, ela  que vos corteja.
     LEONTES (abraando Hermone) - Oh! Est quente! Se magia for tudo, seja uma arte to lcita como o ato de comer.
     POLXENES - Ela o beijou.
     CAMILO - Prendeu-se-lhe ao pescoo. Se est viva, que fale.
     POLXENES - E nos declare onde viveu at hoje e como  morte conseguiu escapar.
     PAULINA - Se vos tivessem dito que ela vivia, certamente rireis como de uma histria antiga; mas que vive  evidente, embora ainda no nos tenha falado. Um 
momentinho, por obsquio. Formosa senhorita,  tempo de intervirdes. Ajoelhai-vos. Boa senhora, ouvi: nossa Perdita foi encontrada. (Paulina apresenta Perdita, que 
se ajoelha diante de Hermone.)
     HERMONE -  deuses, contemplai-nos, e de vossas crateras consagradas derramai graas sobre minha filha! Dize-me, cara, como te salvaste? Onde viveste at hoje? 
De que modo pudeste achar a casa de teu pai? Pois devo te dizer que, tendo ouvido de Paulina que o orculo nos dera esperana de seres encontrada, deixei-me ficar 
viva, porque visse como isso acabaria.
     PAULINA - Para tanto, tempo haver de sobra. Do contrrio, perturbareis com vossa narrativa a grande dita de hoje. Ora reuni-vos, vs todos que lucrastes neste 
dia, e aos demais transmiti vossa ventura, enquanto eu, pobre rola envelhecida, subirei para algum mirrado galho, para chorar o esposo que nunca h de retornar para 
mim, a deixando-me ficar at morrer.
     LEONTES - Oh! no, Paulina! De minha mo recebers marido, como eu de ti a esposa. Isso  um contrato que entre juras firmamos. Devolveste-me a minha. Como 
a achaste... eis o problema; pois eu a vi, ao parecer, defunta, e em vo rezei em sua sepultura. No terei preciso de ir muito longe - pois em parte conheo os 
sentimentos dessa pessoa - para achar um digno marido para ti. Camilo, adianta-te, e pela mo a toma, pois seu mrito e sua honestidade so notrios e por dois reis 
agora confirmados. Saiamos da capela. Como! Os olhos dirige ao meu irmo. Perdo vos peo, por haver posto meu molesto cime entre vossos olhares inocentes. Eis 
vosso genro, filho de um monarca, que por disposio do cu se torna de vossa filha noivo. Generosa Paulina, leva-nos daqui, para onde possamos com vagar interrogar-nos 
e responder sobre o papel que todos representam no intervalo grande que se escoou desde a poca remota em que nos separamos. Vai na frente.
     (Saem.)

      
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Setembro 2000
      
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